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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 789 / 2014

24/09/2014 - 07:49:00

O voto sem caráter

Cláudio Vieira Advogado e escritor membro da Academia Maceioense de Letras

Ao ler o excelente artigo do Jornalista Jorge Morais, na edição passada deste semanário, reavivaram-se-me antigas inquietações sobre as pesquisas eleitorais.

Serão elas um mal ou uma necessidade da democracia? Winston Churchill afirmou ser a democracia a pior forma de governo jamais imaginada, mas assim mesmo a melhor de todas as existentes. Contra-senso? Parece-me mais fina ironia à inglesa dirigida àqueles que combatem o estado democrático. Pensando naquelas palavras do grande líder político, reflito que as pesquisas eleitorais são um mal necessário à escolha democrática dos futuros governantes, porquanto levam ao eleitor as tendências da sociedade civil.

Contraditoriamente é nesse aspecto que emerge o mal. Como bem apontou o jornalista, o elevado número de eleitores indecisos – acrescento aqueles em branco e nulos – põe-me a pulga atrás da orelha: estariam corretas as pesquisas alagoanas, ou a metodologia aplicada é falha? Concordo em gênero, número e grau com as inquietações do Jorge Morais quanto à insuficiência das informações sobre as enquetes eleitorais: quais as regiões pesquisadas e o universo de eleitores em cada uma delas; qual o nível escolar, de renda, etc.?

Qual a rejeição de cada candidato? Essas informações, pelo que sei de experiência, constam em todas as pesquisas, e serviriam para que o eleitor reconheça como confiável o quadro que lhe é apresentado; todavia, propositadamente não são repassadas à mídia, exceto o número geral de pessoas pesquisadas.

Por que essa parcimônia nas informações que deveria ser coibida pela lei eleitoral? Conveniência dos partidos e dos pleiteantes aos cargos eletivos? Se assim for, estarão eles falseando – ou ao menos manipulando – a verdade do quadro eleitoral. E aí vem aquele mal que referi acima.

É sabido que a grande maioria dos políticos brasileiros dedicam especial atenção ao que chamam de voto útil, ou seja, aquele voto do eleitor que “não quer perdê-lo”. Perder o voto seria, para esse segmento, votar em candidatos que não estão bem nas pesquisas, não têm chances de vitória, mesmo que eventualmente sejam eles melhores que os demais com perspectivas de vencerem.

Não pensam, ditos eleitores, que determinados candidatos podem estar liderando a corrida porque têm dinheiro bastante para produzirem programas eleitorais gratuitos plasticamente atraentes; ou têm mais tempo de exposição; ou têm o controle de certa parcela da mídia e a usam inescrupulosamente; ou são bastante sagazes e experientes para oferecerem verdadeiro “canto das sereias”, iludindo os incautos.

E nesse praticar, esses candidatos até usam o nome de Deus em vão, ferindo o segundo dos dez mandamentos bíblicos, apenas um dos desrespeitos seus aos demais cânones do decálogo divino. E o fazem com a maior compunção na cara-de-pau, os olhos contritos e toldados por fingida emoção, atores canastrões de teatro bufa.

Refletindo sobre tais debilidades nas pesquisas eleitorais, não é difícil imaginar que a sonegação de informações mais claras a respeito das mesmas tem o objetivo malicioso de influir no tal voto útil, cuja melhor qualificação seria de voto sem caráter. O eleitor que assim procede sem dúvidas estará desservindo a si próprio, à sociedade civil e, sobretudo, à democracia.

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