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18 de Novembro de 2018

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Edição nº 785 / 2014

27/08/2014 - 19:58:00

Ascensão e queda de um gigante

Reinaldo Cabral especial para o EXTRA

Foi como se um tsunami gigantesco varresse o território alagoano. Esse sinal desesperador estava na expressão de cada um representante do setor sucroalcooleiro no encontro histórico do governador Teotonio Vilela Filho, em palácio, na primeira sexta-feira de agosto,1, com o presidente do Sindaçúcar-Al, Pedro Robério Nogueira.

Robério levou os números da crise - R$ 2,3 bilhões -correspondentes a uma safra perdida. E pediu socorro para evitar que 20 das 24 usinas de Alagoas sigam o mesmo caminho da tragédia que se abateu sobre o grupo João Lyra, que perdeu cinco usinas (Laginha, Uruba e Guaxuma em Alagoas e mais duas que funcionavam no Triângulo Mineiro), além do fechamento da usina Roçadinho, que também deixou de operar.

Na sua exposição, Robério lembrou que havia uma grande capacidade de moagem de canas instalada no estado, “cuja operação se encontrava ociosa pela inexistência de matéria-prima com oferta plena para o abastecimento regular e em bases econômicas”.

-Havia um certo volume de canas produzidas em áreas de baixa rentabilidade e alto custo que se mostraram inviáveis no momento que o governo federal extinguiu o subsídio de equalização de custos de produção de cana para a região nordeste.

Com a menor oferta de cana para viabilizar uma moagem racional e econômica, algumas unidades industriais decidiram paralisar as suas atividades, enquanto que as canas remanescentes foram absorvidas pelas outras usinas da vizinhança.No esforço derradeiro para sensibilizar o governador – usineiro Teotonio Vilela Filho - Robério arrematou:

-As unidades que decidiram pela paralização das suas operações na última safra, o fizeram por aperto de liquidez financeira, decorrente de uma convergência de fatores como a política de congelamento do preço da gasolina concorrente do etanol durante os últimos oito anos  – insuficientes para cobrir os custos de produção, que mantiveram a escalada de aumento acima da inflação, redução drástica da oferta de empréstimos rotineiros ao setor – sobretudo à exportação após a crise financeira internacional de 2008 - e perdas decorrentes das secas nos últimos dois anos, que reduziu a produção de cana em mais de 5 milhões de toneladas e subtraiu um faturamento global do setor em Alagoas em cerca de R$ 2 bilhões.


ENFRENTAMENTO
O relato de Pedro Robério foi assistido pelos representantes da Federação das Indústrias (FIEA), Federação da Agricultura, Federação das Associações Comerciais de Alagoas,  da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Alagoas (Fetag) e do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Açúcar.

A reivindicação direta ao governador – ampliação do prazo para o pagamento de ICMS e a redução da carga tributária – teve logo ressonância: Vilela mandou sua assessoria técnica estudar a possibilidade de atendimento no curto prazo.Pudera: com ICMS de 27% sobre o etanol e 17% sobre o açúcar e sem incentivos fiscais, Alagoas é campeã nacional em carga tributária sobre o setor sucroalcooleiro – o ICMS de São Paulo sobre o etanol é de apenas 12%.

João Lyra

A paixão pelo trabalho e os limites do infinito

Visionário do capitalismo? Sonhador político? Fanático da inovação do empreendedorismo? Ícone do exotismo empresaral? Perseguidor da ética? Defensor dos valores do passado no presente? Um lunático com um pé no passado e outro no presente?Um pouco disso tudo e mais uma forte dose de ousadia e convicções ideológicas conservadoras, mas não ao ponto de emprestar apoio ao golpe militar de 1964, ao contrário de outros industriais do setor.

Essas características auxiliam na definição do perfil do empresário João Lyra, cuja trajetória é uma ponte entre o ciclo das usinas de açúcar e álcool, que já sustentaram 80 % da economia alagoana e o início de um novo ciclo em que a produção de energia será predominante e do antigo ciclo só restará uma lembrança estonteante sob a forma de destilarias de cachaça para abastecer o mercado externo.


TRAJETóRIA ACIDENTADA                                              

A trajetória do mega empresário e hoje deputado federal João Lyra percorre o ciclo de ascensão da indústria sucroalcooleira de Alagoas, até o seu encerramento ano passado, a partir de quando se inicia a conversão do setor em sucro-energético.Apesar de ter perdido as cinco usinas que chancelavam o seu império numa sucessão de crises, observadores atentos são unânimes em apreciar o nome do empresário na constelação dos maiores e melhores empresários de Alagoas de todos os tempos e cujo capítulo final da sua história não pode nem deve ser manchado pelo fato de não ter conseguido fazer um sucessor.Pernambucano, João Lyra chegou a Alagoas muito cedo, aos 17 anos, depois de ter recebido uma herança do pai.

Logo assumiu a direção da usina Larginha, em União dos Palmares.Como nem sua obstinação nem sua ousadia tinham limites, logo se afastou da cooperativa dos usineiros, impondo-se como industrial independente e em menos de duas décadas alçou o topo do setor, saltando de uma para cinco unidades industriais (três delas em Alagoas e duas em Minas Gerais), além de ter implantado uma fábrica de adubos (Adubos Jotaele) e uma concessionária da Wolkswagen.Hoje aos 84 anos, o ocaso do grupo JL coincide com o momento em que os sobreviventes do setor migram para a produção de energia e os produtores de açúcar criam destilarias de cachaça para o abastecimento do mercado externo – um nicho comercial até então pouco visualizado.

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