Acompanhe nas redes sociais:

23 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 780 / 2014

23/07/2014 - 10:18:00

Adeus às ilusões

Anivaldo Miranda jornalista

O futebol brasileiro não morreu na arena do Mineirão. Em verdade ele já estava morto e mais dia, menos dia, um coveiro se encarregaria de lançar a pá de cal sobre uma época de declínio que não apagou a era de ouro da seleção canarinha, mas sem dúvida imprimiu-lhe uma mancha tão constrangedora que terá talvez a força de um ciclone esportivo e quem sabe até mesmo político e cultural.Como o futebol não é um ser vivo, mas sim uma prática social, ele sem dúvida ressuscitará algum dia, no Brasil, para reviver a glória dos nossos admirados e fantásticos campeões.

Até lá, porém, teremos que tirar as lições amargas de uma realidade que nós teimávamos em ignorar nos últimos anos, preferindo viver das glórias do passado e das alienações do presente, sem querer aceitar a incontornável evidência que as vitórias e as conquistas, em qualquer plano da atividade humana, precisam ser construídas.

Milagres acontecem em um gol, numa defesa, até mesmo numa partida. Nunca em um campeonato inteiro e muito menos em uma longa trajetória de conquistas.O tempo passou, o mundo mudou, a sociedade ingressou em um novo ciclo e o futebol como nunca globalizou-se e sobretudo mercantilizou-se a um nível jamais visto. Mudanças se deram, como sempre, para o bem ou para o mal.

Até nós mesmos mudamos, mas não tivemos nem o discernimento, nem a coragem de encarar esse fato. O resultado foi, então, essa acomodação, que já dura uma eternidade, para com um modelo de prática esportiva ou mais precisamente antiesportiva, que mantém as aparências de excelência, mas de fato, massacra, distorce, abastarda nossa tão declamada paixão nacional.

Há tempos fechamos os olhos para a corrupção crônica que a cartolagem promove nos clubes e nas entidades do futebol, somos tolerantes para com as práticas antiéticas dos abutres que comandam o mercado e o tráfico internacional de jovens talentos da bola e, num plano mais abrangente, lenientes para com a inqualificável gestão desportiva no país, para não falar de um sistema educacional falido que não conseguiu entender o novo contexto brasileiro e, portanto, a necessidade de romper antigos paradigmas para oferecer à nossa infância e à nossa juventude as condições e os espaços adequados que desapareceram com a meteórica urbanização do país.

Foi-se o futebol de fundo de quintal, da bola de meia, dos campos de várzea, do meio da rua, nas outrora pacatas cidades, e dos campinhos das velhas e boas escolas públicas. Foram-se os times de futebol amador. Foram-se os craques que davam a alma por suas camisas. Foi-se a magia de um tempo que não volta mais.

E não adianta chorar a morte da burra porque esse tempo não voltará mesmo. O que adianta é chorar de decepção por não termos percebido o fim de uma era e a inquestionável urgência de iniciar outra, mesmo sob os escombros da anterior, como é o caso daquilo que restou dos 7x1 “nunca vistos dantes na história do Brasil” como costuma afirmar conhecido demagogo que recentemente governou nosso país. Alguém disse, assim que terminou o jogo com a Alemanha, que a derrota nos ensina.

E é verdade. Dói muito, mas ensina. Resta saber se desta vez vamos aprender a lição e finalmente iniciar um vigoroso debate nacional para começar, pelo futebol, as grandes mudanças que o Brasil precisa para chegar à fase adulta de uma sociedade que, de uma vez por todas, faça o ajuste de contas com a corrupção e com toda essa cultura anacrônica e perniciosa do “jeitinho brasileiro,” da “improvisação” negligente, da “malandragem” idiota, do complexo (de inferioridade) de “melhor” do mundo, do culto doentio à aparência e outras babaquices e heranças que tantas mazelas nos causam.

Se quisermos colocar a mão no caneco mais algumas vezes, digamos assim, então chegou a hora de redefinir os padrões éticos da prática do futebol profissional e consequente definição das regras através das quais os interesses do mercado, embora legítimos, não atropelem, como acontece atualmente, os direitos, a cultura e o imaginário de uma sociedade que fez dos gramados uma das referências para sua identidade. Quem sabe se, fazendo a partir de agora a faxina e o dever de casa no futebol, venhamos a inspirar todo o povo brasileiro a fazer a mesma coisa no Brasil inteiro, para dar ao esporte brasileiro e à nossa jovem democracia a solidez e a maturidade que os novos tempos reclamam.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia