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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 779 / 2014

16/07/2014 - 09:49:00

Alagoanos bebem água contaminada

Estado está na iminência de um nova epidemia de doenças diarréicas, as chamadas DDA, responsáveis pela morte, no ano passado, de 233 pessoas

Vera Alves [email protected]

Há exatamente um ano, o crescimento assustador do número de casos de diarreia aguda e de óbitos pela doença na região do Agreste de Alagoas obrigou as autoridades sanitárias a um esforço concentrado que conseguiu controlar a epidemia após 53 mortes somente no mês de junho, de um total de 233 registradas de janeiro a dezembro de 2013 em todo o estado. Este ano, a história pode voltar a se repetir e isto a despeito de se saber que as mortes por DDA (Doenças Diarréicas Agudas) foram provocadas pela má qualidade da água consumida pelos alagoanos.

A confirmação de que a água que se consome em mais de 80% dos municípios do estado é imprópria ao consumo humano por estar contaminada por coliformes totais, entre eles o Escherichia Coli - um dos principais vetores das DDA -, é das próprias autoridades de saúde e consta do Relatório Vigiágua 2013, elaborado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), através da Superintendência de Vigilância em Saúde e Diretoria de Vigilância em Saúde Ambiental, divulgado em fevereiro deste ano.

Junto com os relatórios de quatro investigações feitas na região de Palmeira, na época da epidemia, ele confirma o risco a que a população está sujeita hoje.Diferentemente do que foi divulgado pelo governo do Estado na época, não foi apenas a água de carros-pipas que provocou a epidemia na região de Palmeira.

Também ela, mas, e principalmente, os altos índices de coliformes totais, entre eles o Escherichia Coli, presentes na água fornecida pelos Sistemas de Abastecimento de Água (SAA) – assim denominadas as redes da Casal (Companhia de Saneamento de Alagoas) e dos Serviços Autônomos -, pelas chamadas Soluções Alternativas Coletivas (SAC), como são denominados os carros-pipas e chafarizes, e nas Soluções Alternativas Individuais (SAI), a exemplo das cisternas de chuva.

O alerta do risco de uma nova epidemia de DDA tem sido repassado aos municípios pela Sesau através dos informes semanais e boletins epidemiológicos instituídos por força da Portaria Nº 104 do Ministério da Saúde. Datada de 25 de janeiro de 2011, ela tem o objetivo de monitorar e também prevenir a ocorrência de surtos ou epidemias de doenças como a diarreia aguda, coqueluche, dengue, rubéola e varíola, dentre várias outras.

A chamada Lista de Notificação Compulsória Nacional e Estadual, instituída pela Portaria 104, inclui também o registro e informe obrigatório de casos de acidente de trabalho, Aids, hanseníase, crianças e gestantes portadoras do vírus HIV, influenza (gripe) e doenças transmitidas por alimentos consumidos em embarcações e aeronaves, as DTA. No que se refere especificamente à situação das Doenças Diarréicas Agudas, o informe da Sesau até a 16ª semana, relativo ao período de 29/12/13 a 19/04/14, aponta para o registro de 27.121 casos, um aumento de 13,34%  em relação ao mesmo período de 2013 (23.929 casos).

Também foram constatados 41 surtos em seis municípios: Cacimbinhas, Junqueiro, Maragogi, Pão de Açúcar, Santana do Ipanema e São José da Laje. “No período em análise, foram registrados no Sistema de Informação de Mortalidade – SIM, 25 óbitos por diarreia em 14 municípios (Arapiraca, Barra de Santo Antônio, Capela, Colônia Leopoldina, Feira Grande, Girau do Ponciano, Maceió, Marechal Deodoro, Murici, Palmeira dos Indios, Pão de Açúcar, Piranhas, São Sebastião e Teotonio Vilela)”, diz o informe da Sesau, acrescentando que dos 14 municípios com registro de mortes, 4 (28,57%) estão com subnotificação dos casos, ou seja, o número de doentes e mortes pode ser maior. No que diz respeito à faixa etária, a mais atingida é formada por maiores de 50 anos com 21 óbitos (84%).“Melhoria da qualidade da água”. Este é o primeiro item das medidas de controle elencadas pela pasta, somada ao destino adequado de lixo e dejetos, controle de vetores, higiene pessoal e alimentar.

Propício ao armazenamento de água em cisternas, o período chuvoso é também o de maior incidência de DDA, daí a preocupação dos órgãos de saúde em conscientizar os profissionais da área sobre a necessidade de monitoramento e notificação dos casos, bem como aos gestores municipais quanto a procedimentos que garantam uma água de melhor qualidade à população.Alvo de reuniões com técnicos do Ministério da Saúde, Sesau, Funasa e Ministério Público Estadual (MPE) e Federal (MPF), o controle das DDA ainda depende de uma participação mais efetiva das prefeituras, como atestam os resultados obtidos pela Funasa, que percorre os municípios coletando amostras e realizando análises da água em todo o estado.


A EPIDEMIA DE 2013

Entre 5 de maio e 11 de julho de 2013, Palmeira dos Índios registrou 11 óbitos e 5.870 atendimentos por diarreia aguda, sendo que ao longo de todo o ano de 2012 haviam sido registrados 4.842 casos. Denominado à época de surto, mas hoje reconhecido como epidemia, o registro exacerbado de diarreia aguda no município gerou quatro investigações de órgãos sanitários e todas apontaram a má qualidade da água como a responsável. 

Segundo relatório do Ministério da Saúde, que coordenou duas investigações, nas 18 amostras de SAA (Sistemas de Abastecimento) examinadas, em 7 havia grande incidência de coliformes, sendo que 6 apontaram a presença do Escherichia Coli (E. Coli). Das 7 amostras de SAC (Soluções de Água Coletivas), 4 tinham coliformes, sendo que em 3 foi detectado E. Coli, enquanto nas SAI (Soluções de Água Individuais), as duas amostras coletadas possuíam coliformes, sendo uma com E. Coli.

Entre os 89 pacientes internados no Hospital Santa Rita com diarreia em 17 de maio, 74 (83,1%) haviam consumido água da Casal, 24 (27%) utilizaram água de poço, 25 (28,1%) tinham cisternas em casa, 8 (9%) afirmaram fazer o tratamento correto da água que bebiam, e, 6 (6,7%) haviam utilizado água de caminhão-pipa. A epidemia de 2013 em Palmeira também foi investigada pela Vigilância Epidemiológica da Sesau que em 17 de junho de 2013 emitiu uma Nota Técnica relatando os procedimentos adotados a partir da constatação do crescimento atípico de casos de DDA através do Sistema de Monitorização das Doenças Diarréicas Agudas (MDDA), preconizado pelo Ministério da Saúde.

Diante da gravidade da situação, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), através da Superintendência Estadual de Alagoas, foi acionada para implantar uma Unidade Móvel para Controle da Qualidade da Água para Consumo Humano (UMCQA) em Palmeira dos Índios e a conclusão a que chegou, de acordo com o relatório emitido em 8 de julho de 2013, sobre as amostras coletadas em 40 pontos para análise dos indicadores de coliformes totais, E. Coli, turbidez e cloro residual, foi de que “a grande maioria das amostras não atende às exigências contidas na legislação para uma água potável destinada ao consumo humano”.

“Em relação à contaminação microbiológica, 57,5% das amostras revelaram presença de coliformes totais e destes 40% com presença de Escherichia coli”, diz o relatório, ainda segundo o qual, “no tocante às análises físico-químicas, 25% das amostras das águas tinham não conformidade no parâmetro turbidez, ou seja, uma leitura acima de 5 UT, e 27,5% revelaram ausência total de cloro residual”.


O QUE DIZ A CASAL

Questionada sobre os altos índices de contaminação, a Casal enviou nota através de sua Assessoria de Comunicação informando que a água que fornece “é tratada, analisada e monitorada, não havendo riscos à saúde, conforme atestam os laudos de análises que são feitos periodicamente pelos laboratórios da empresa, obedecendo à Portaria Nº 2.914 do Ministério da Saúde; acontece que, em alguns casos, como o registrado em Palmeira dos Índios no ano passado, os consumidores usam fontes alternativas de abastecimento ou misturam a água dessas fontes - cacimbas, barreiros, poços, açudes, cisternas etc. - com a água da Casal, comprometendo a qualidade.

Nesse caso, a responsabilidade por contaminação não é da Companhia”.Responsável pelo fornecimento de água para 76 dos 102 municípios alagoanos, a Casal afirmou, ainda, não ter quaisquer ingerências no abastecimento dos 26 municípios que são operados pelas prefeituras, bem como nos casos de utilização de fontes alternativas”, acrescentando que “construiu estações de cloração em várias localidades e adquiriu analisadores digitais de cloro para melhorar o monitoramento e a qualidade do produto que oferece à população”.

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