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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 777 / 2014

01/07/2014 - 11:35:00

Iraque em chamas sacudirá o Oriente Médio?

Ameaça do ultra-fundamentalismo islâmico pode suscitar aliança surpreendente entre Irã e Arábia Saudita, o que transformaria geopolítica da região

Immanuel Wallerstein Ópera Mundi

Um movimento jihadista, denominado Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Islamic State in Iraq and Syria, ou ISIS, em inglês), acaba de obter uma vitória impressionante e arrasadora ao capturar Mosul, terceira maior cidade do Iraque, ao norte do país. Suas forças prosseguiram para o sul, em direção a Bagdá, e tomaram Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein. O exército iraquiano parece ter desabado, tendo inclusive cedido Kirkuk aos curdos.

O ISIS também aprisionou diplomatas e caminhoneiros turcos. Ele agora controla efetivamente um grande pedaço do Norte e do Oeste do Iraque, bem como uma zona contígua no Nordeste da Síria. Comentaristas têm rotulado esta zona transfronteiriça de Jihadistão. O ISIS tenta restabelecer um califado numa área tão grande quanto possível, com base numa versão particularmente estrita da lei islâmica, a sharia.

O choque e o medo que os sucessos deste movimento têm provocado podem levar a grandes realinhamentos geopolíticos no Oriente Médio. Geopolítica é uma arena de frequentes surpresas, na qual conhecidos antagonistas repentinamente reconciliam-se e transformam sua relação naquilo que os franceses chamam de frères ennemis, inimigos fraternos.

O exemplo mais famoso do último meio século foi a viagem de Richard Nixon à China para reunir-se com Mao Tsé Tung, uma viagem que serviu fundamentalmente para rever os alinhamentos dentro do sistema-mundo moderno e desde então serve de apoio à relação China-Estados Unidos.

Há tempos, a mídia global enfatiza a profunda hostilidade existente entre a Arábia Saudita e o Irã.Uma reconciliação parecia improvável. Mas, considerando-se que nos últimos meses tem havido encontros secretos entre os dois países, pode-se perguntar se uma surpreendente inversão geopolítica não é iminente.

Sempre que essas reviravoltas ocorrem, a questão a ser respondida é o que os dois lados ganham com isso. É necessário que haja interesses comuns que superem as bases conhecidas de hostilidade. Comecemos pondo de lado um argumento dos analistas para explicar o antagonismo.

Trata-se do fato de que o governo do Irã é controlado por imãs xiitas e a Arábia Saudita, por uma monarquia sunita. Isso é verdade, naturalmente.Mas lembremo-nos de que, até 1979, Irã (sob o governo do Xá) e Arábia Saudita (sob a mesma monarquia sunita de hoje) foram aliados geopolíticos próximos, e trabalharam juntos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em todas as questões relacionadas ao preço de petróleo – uma preocupação central na economia de ambos os países.

Só a partir de 1979 o Irã mudou sua política e teve início o antagonismo público entre os dois, mas só então.O ponto fundamental da disputa pública entre Arábia Saudita e Irã foi a competição pelo domínio geopolítico na região. O que poderá mudar isso agora é precisamente o levante do ISIS, que representa grave ameaça a ambos os Estados. O interesse comum aos regimes da Arábia Saudita e do Irã é a necessidade de uma relativa estabilidade dentro de seus estados e na região como um todo.

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