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18 de Setembro de 2018

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Edição nº 774 / 2014

11/06/2014 - 09:33:00

Construção de Pólo Industrial em Palmeira dos Índios vai desabrigar 72 famílias

Com 102 anos, Maria da Conceição implora para não ser despejada da terra onde vive há mais de meio século

Geovan Benjoino [email protected]

Moradora há 60 anos do povoado Batingas, antigo Campo de Pouso, Maria da Conceição, que tem 102 anos de idade, chorou  copiosamente quando a reportagem esteve no lugar para registrar a ameaça de despejo de 72 famílias compostas por 211 pessoas que moram na área em que será construído o Polo Industrial de Palmeira dos Índios, projeto encampado pela prefeitura do município.

Assustada, tremendo fisicamente e chorando incontrolavelmente a moradora do povoado, mãe de doze filhos e dezenas de netos e bisnetos, disse não saber a quem recorrer para permanecer no lugar em que vive há mais de meio século. “Meu filho” – enfatizou lucidamente dona Maria da Conceição – “Levantamos a nossa casa com muito suor, trabalho e sacrifício.

Aqui vivemos nossas vidas com paz e amor. Agora, do dia para noite, chega a prefeitura querendo me expulsar daqui, um lugar que amo tanto e gostaria de morrer aqui”, ressalta inconformada. “Para onde vamos? Vou morrer aonde? Vou fazer mais o que em outro lugar?!”, questiona indignada.

Lúcida e com problemas naturais de sua idade centenária, Maria da Conceição – que é um arquivo vivo de parte da história de Palmeira dos Índios, fica emocionada quando  alguém aborda a destruição literal de sua casa e da comunidade. “A dor que sinto é muito grande e o buraco que vai ficar no meu coração não tem nada do mundo que o tape”, enfatiza Maria da Conceição.

Sempre quando é alertada pelos moradores do Batingas, que também estão preocupados com a ameaça de despejo por causa do futuro Polo Industrial, Maria da Conceição não consegue conter as lágrimas que surgem de seus olhos denunciando as consequências de um gravíssimo problema social que a Prefeitura de Palmeira dos Índios continua menosprezando em nome do “progresso”.

Ao tomar conhecimento do possível despejo das famílias a professora Deodônia Filizardo criticou a municipalidade por se manter irredutível quanto a saída da comunidade. “O “progresso” que não proporciona benefícios sociais, não é progresso, mas uma chaga que corrói a alma do povo”, disse Deodônia.


INJUSTIÇA SOCIAL

“A prefeitura pode perfeitamente construir o Polo Industrial sem afetar as famílias que moram no povoado Batingas há dezenas de anos”, ressalta José Maria Melo da Costa, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Palmeira dos Índios e primeiro secretário da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Alagoas (FAEAL).

 “Somos a favor do desenvolvimento industrial; defendemos o progresso de Palmeira dos Índios, mas não devemos jamais desajustar e desagregar mais de duzentas pessoas que construíram suas casas com suor e sangue. É terrivelmente injusto e dói no coração ver adultos, jovens e, sobretudo crianças desesperadas, à toa, chorando impotentes diante de um problema provocado pela insensibilidade daqueles que se autoproclamam defensores da povo”, enfatiza José Maria Melo da Costa, que defende a permanência da comunidade no povoado Batingas. “Aqui os moradores construíram famílias, trabalham honestamente e vivem solidariamente”, diz.O vereador Agenor – que manifestou solidariedade às famílias – disse que é terminantemente contra o despejo. “Essa injustiça não deve prosseguir.

A prefeitura cometerá uma loucura se expulsar do Batingas as pessoas que moram no lugar há quase setenta anos”, enfatiza.A área – composta de mais de 100 tarefas de terra – na qual estão inseridos o futuro Polo Industrial e as 72 famílias ameaçadas de despejo pertencia à Aeronáutica, que nunca reclamou em retomá-la. A invasão foi consentida. No entanto, a prefeitura do município – que retomou a posse da área - insiste em transferir as 211 pessoas para outro lugar ainda não definido. Muitos moradores do povoado Batingas não querem sair do lugar em que nasceram e se criaram. Outros confessam que temem ficar “no olho da rua sem lenço e sem documento”. 


PREFEITURA DERRUBA CASA DE MARIA AZEVEDO

Segundo denúncia de Maria José Azevedo de Oliveira, que morava no povoado Batingas, a Prefeitura de Palmeira dos Índios mandou derrubar sua casa há três anos. Atualmente morando de favor em Belém porque ficou sem casa, Maria Azevedo disse que o casebre foi construído com muito sacrifício e economia. Ela revelou que passou fome economizando dinheiro para realizar o sonho da casa própria, que foi interrompido pelo município.

“Carreguei muitos baldes de água na cabeça ajudando o meu marido a construir a nossa casinha. Ele vendeu uma motinha que tinha para terminar a construção, que foi derrubada pela polícia a mando da prefeitura”, ressaltou inconformada Maria Azevedo revelando que nunca recebeu indenização, bolsa alimentação nem aluguel social. “Procurei o promotor de Justiça Paranhos, mas até hoje a prefeitura nunca me deu um centavo sequer pela casa que destruiu”, concluiu com os olhos lacrimejados. 

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