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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 766 / 2014

15/04/2014 - 09:30:00

Jorge Oliveira

Vargas, o falastrão

Brasília - O deputado André Vargas, patrocinador do “Volta Lula”, é um boquirroto, fala pelos cotovelos. Ele lidera a dissidência petista que torce pela volta do ex-presidente Lula para substituir a Dilma nas eleições deste ano. Quebrou a cara. Subestimou a capacidade da presidente de se articular e usar o poder para jogar uma bomba no colo dele. Agora, dentro do fosso da armadilha, está patinando e desorientado. Precisar arrumar imediatamente argumentos que justifiquem a sua ligação com o doleiro Alberto Youssef, preso por lavagem de dinheiro. 

Vargas é aquele deputado que ergueu o braço para constranger o presidente do STF, Joaquim Barbosa, na abertura do ano parlamentar. Coitado! Esqueceu-se de que esse é hoje o símbolo da corrupção no Brasil, depois que seus colegas, Zé Dirceu e Zé Genoíno, fizeram o mesmo gesto a caminho do presídio. O deputado é um falastrão, aliás, como muitos petistas que estão no xadrez.

Flagrado mamando nas tetas do doleiro, dono da maior lavanderia do país, Vargas virou a versão Câmara do Demóstenes Torres, um homem acima de qualquer suspeita, que apodreceu por levar vida dupla, uma delas dedicada ao bicheiro Cachoeira, de quem era boy de luxo. O deputado usou a tribuna da Câmara dos Deputados para fazer a sua defesa depois da denúncia de que era lobista do doleiro e defendia seus interesses no Ministério da Saúde. Além disso, usava o jatinho do doleiro para conhecer as praias nordestinas. Numa dessas viagens, lotou o avião com a família e passou uma semana na Paraíba. Ao ser questionado mentiu ostensivamente. Quanto mais tenta se explicar mais enrolado fica na história.

A verdade é que o deputado agia nos ministérios a serviço do doleiro. Em troca passeava no seu jatinho de luxo comprometendo inclusive a família que, certamente, desconhecia as peripécias do parlamentar para usufruir de tal conforto. O deputado André Vargas foi ingênuo na sua campanha do “Volta Lula”. Esqueceu-se de uma regra elementar: quem está no poder não quer se apeado dele. E se puder permanecerá sempre nele. A campanha que ele inflamou para que o ex-presidente Lula substituísse a Dilma na disputa eleitoral importunou os partidários da presidente. Na primeira oportunidade, eles deram o troco.

O acesso fácil as investigações da Polícia Federal facilitou a vida dos aliados da presidente que soltaram para a Folha de S. Paulo a informação do comprometimento de Vargas com o submundo do crime financeiro.Não adianta ele se justificar. O fogo amigo já começou. Muitos dos seus parceiros petistas querem a sua cabeça. Acham que ele deve renunciar para não comprometer a reeleição da Dilma. Veja que ironia: Vargas deve ser sacrificado para salvar a cabeça de quem ele queria cortar, a da presidente.

É assim que se faz política aqui e no mundo. Se a campanha do “Volta Lula” tivesse sido bem sucedida, Vargas hoje seria o grande artífice do projeto. Como deu errado, foi jogado à arena dos leões.Se pensa na solidariedade dos amigos petistas pode tirar o cavalinho da chuva. Ao cair em desgraça,  tudo se volta contra ele. André Vargas não é um parlamentar do baixo clero, ele é o vice-presidente da Câmara dos Deputados. Portanto, deve deixar a Casa para não comprometer a instituição já tão abalada com tantos escândalos e cassações de deputados marginais e corruptos.

Decoro

Um burocrata da Câmara, com a caneta cheia de tinta, decidiu, isoladamente, arquivar a representação do Psol contra o deputado André Vargas, do  Paraná, amigo íntimo do doleiro Alberto Youssef de quem usava o jatinho de luxo para conhecer as praias do Nordeste com a família. É assim que funciona o corporativismo em Brasília: todos, na Casa, lutam pela sobrevivência. Afinal de contas, amanhã pode ser o próprio presidente da Câmara, Luiz Henrique Alves, alvo também de escândalo, motivo pelo qual o teria levado a se omitir deixando para o burocrata a decisão pelo arquivamento da sindicância que pede investigação sobre o envolvimento de Vargas com o submundo do crime financeiro. 


Fogo amigo

André Vargas reclama do fogo amigo. Anda pelos corredores da Câmara acusando o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, de responsável pelo vazamento da informação sobre  sua parceria com Youssef e o seu envolvimento com os negócios escusos do doleiro nos ministérios. Ele acha que foi metralhado pelos dilmistas depois que iniciou o “Volta Lula”, campanha que pedia a substituição da Dilma por Lula nas eleições deste ano. O governo teria divulgado a sua ligação com o doleiro para silenciar seus apelos e desestimular outros dissidentes ao movimento que ele começou. Agora, Vargas sabe quem ainda manda no país.


Cassação

O deputado, porém, não está livre da cassação. O PSDB e o DEM vão entrar com uma representação contra ele no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. Querem que ele explique como circulava pelos céus do Brasil no avião do doleiro e o lobby que fazia no Ministério da Saúde para arrancar de lá um contrato de 35 milhões de reais que tinha em Youssef principal interessado na negociata. Vargas certamente terá dificuldades para esclarecer a sua amizade e os negócios que mantinha com o crime organizado, como revelou a Veja desta semana divulgando diálogo suspeito entre ele e o doleiro. Outra dificuldade é convencer seus pares que não enriqueceu ilicitamente.

Multiplicação

De um Monza 1993, avaliado em 9 mil reais, André Vargas viu seu patrimônio crescer 50 vezes em 10 anos. A multiplicação dos pães começou quando ele entrou na política como vereador em 2010. De lá pra cá, o sonho de ficar rico na política se concretizou.. E se consolidou quando ganhou a cadeira de deputado federal em 2006. Aí, sim, saiu definitivamente da linha da pobreza. Entre 2006 e 2010, Vargas comprou um terreno de 100 mil reais, outra casa e um lote em Londrina. Nas eleições de 2010, o deputado fazia inveja aos seus eleitores. Desfilava pelas ruas da sua cidade com três caminhonetas: Toyota Hilux, GM Tracker e Hyundai Vera Cruz. Além disso, se diz hoje dono de duas empresas e guarda na Caixa Econômica Federal reservas de 56 mil reais.


O milagre

Veja se isso não é um milagre: em 2000, quando entrou na política como vereador, o deputado informou à Justiça Eleitoral patrimônio de 2 mil 500 reais. Em 2010, na sua última eleição, o valor declarado foi de 572 mil reais. Não é à toa que o deputado torce tanto pelo “Volta Lula”!  


Cassação

Antes do fechamento desta coluna, André Vargas, pressionado pelo PT, estaria para apresentar carta renunciando ao mandato. Se isso ocorrer, é mais um petista flagrado com a boca na botija que desaparece do cenário político. Na prisão só deverá reaparecer depois do julgamento pelo crime de ser sócio de um doleiro envolvido em crimes financeiros. Foi-se.

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