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Edição nº 761 / 2014

11/03/2014 - 18:22:00

Economistas avaliam impacto da falência

Vera Alves [email protected]

Diferentemente do alardeado ao longo dos últimos cinco anos, a falência da Laginha Agro Industrial S/A, ainda que não seja revertida em instâncias superiores, não trará grande impacto ao setor sucroalcooleiro ou à economia alagoana. O maior impacto será nos municípios onde estão localizadas três das cinco usinas que integram o holding, União dos Palmares (Laginha), Atalaia (Uruba) e Coruripe (Guaxuma). A avaliação é do economista Cícero Péricles de Carvalho, ao destacar que a falência das empresas do Grupo João Lyra não significa o fechamento das três unidades industriais em Alagoas. “A decisão judicial não busca a desativação das usinas, mas uma alternativa para credores e novos gestores”, afirma.

Doutor pela Universidade de Córdoba (Espanha), professor do Programa de Mestrado em Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e autor do livro “Economia popular – uma via de modernização para Alagoas” (6ª Ed. Edufal), Cícero Péricles assinala que o segmento sucroalcooleiro representa, atualmente, em torno de 18% da economia estadual. “Ou seja, todas as usinas e destilarias juntas produzem menos de um quinto da riqueza estadual. A contribuição do setor para os cofres do Estado é simbólica, menos de 1,5% do total do ICMS arrecadado em 2012. E isso reduz a importância econômica desse segmento e dos problemas localizados em uma de suas empresas ou mesmo grupo empresarial”.

Ele destaca, ainda, o fato de que os credores têm vivo interesse na continuidade dessa produção e no bom funcionamento dos ativos, que são a maior garantia de pagamento das dívidas do grupo. Péricles não acredita na desativação das usinas. “O Grupo JL é maior que as três unidades alagoanas. Também está presente em Minas Gerais, com mais duas modernas usinas, a Triálcool, em Canápolis, e a Vale do Paranaíba, em Capinópolis, com capacidade para moer, juntas, três milhões de toneladas de cana. Esses dois grandes investimentos foram realizados ainda na década de 1990, aproveitando as atrativas condições de produção no Triângulo Mineiro e o bom momento de financiamento estatal da indústria sucroalcooleira em Minas Gerais.

O Grupo JL, na safra 2010/2011, foi considerado a 20ª maior empresa nacional de açúcar e álcool, com uma produção de seis milhões de toneladas de cana. Como todas essas usinas, tanto em Alagoas como em Minas, têm muitas terras para plantar cana e parque industrial moderno, destilarias anexas, assim como são produtoras de energia a partir do bagaço de cana, a possibilidade de saída negociada com os credores é muito ampla”.Segundo ele, as razões da falência não são econômicas, mas administrativas, gerenciais, que levaram a graves problemas financeiros.

“O acúmulo de dívidas, financeiras, com prestadores de serviço, fornecedores de cana e de insumos industriais, dívidas tributárias, trabalhistas e previdenciárias, foi uma constante nesta última década. Esses problemas administrativos superaram a capacidade do grupo de resolver as pressões vindas de todos os lados. A recuperação judicial, declarada em 2008, levantou outra questão administrativa, o problema sucessório no grupo. Desde então o grupo JL se transformou em notícia na mídia especializada. Outras empresas e mesmo grupos do setor sucroalcooleiro de Alagoas, depois de 2008, apresentaram problemas financeiros, mas souberam atravessar a conjuntura negativa”.

O economista lembra, ainda, o fato de que o conjunto dessas empresas é extremamente beneficiado por recursos federais. “Sempre foi. Nos planos de modernização industrial, nos anos 1960/1970; no Proálcool, nos anos 1970/1980, e, mais recentemente, no Programa de Subvenção da Cana de Açúcar, que paga, desde 2008, por meio da Conab, aos fornecedores de cana nordestinos, um subsídio no valor de R$12,00 para cada tonelada produzida; paga, também, R$ 0,20 aos industriais por cada litro de álcool produzido. Para a safra atual, foram liberados R$ 380 milhões, dinheiro federal. Com mais de sete mil fornecedores de cana cadastrados na Conab e 23 destilarias produzindo o etanol, Alagoas é o Estado mais beneficiado e, somente no ano passado, recebeu R$77,5 milhões deste programa”, ressalta.


“TEMPESTADE PERFEITA”

Doutor em Economia Industrial e da Inovação pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autor da tese “Competitividade e transformações estruturais na agroindústria sucroalcooleira no Brasil: uma análise sob a ótica dos sistemas setoriais de inovações”, o economista Francisco Rosário não vislumbra um futuro promissor para o setor sucroalcooleiro em Alagoas se não houver uma mudança na forma de gestão.Coordenador do Grupo de Estudos em Tecnologia, Inovação e Competitividade (GETIC), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ele considera que o maior impacto da falência da Laginha Agro Industrial S/A é social.

“O impacto maior é na questão do emprego porque o setor ainda é o maior empregador do estado, são cerca de 40 mil empregos diretos. E este pessoal não em habilidade profissional suficiente para trabalhar em outro setor, possui baixa escolaridade, sem habilidade nem mesmo para o comércio, que é um setor que vem se expandido em Alagoas”, frisa.A crise do Grupo João Lyra, destaca Francisco Rosário, não é um caso isolado no Brasil.

“No geral, o setor no Brasil inteiro esta tendo problemas; não é uma particularidade nossa. Em São Paulo, há hoje 50 usinas para vender e 32 fechadas, é uma crise se agrava com a política do governo de segurar o preço da gasolina, já que o preço do álcool está limitado a 75% do preço da gasolina e acaba sobrando para as usinas, que ficam sem recursos para investir e se modernizar, com problemas de geração de caixa.

A realidade hoje é de quebra generalizada no Brasil”, afirma.Mas, no caso alagoano, ele destaca um conjunto de fatores que levaram ao que chama de “tempestade perfeita”: cenário de marcado ruim, problemas de gestão e seca, associados ao sucateamento das usinas, com poucas exceções. Ele também critica o conservadorismo da maioria dos usineiros alagoanos que, afirma, insistem em reproduzir um modelo ultrapassado, não investem em tecnologia ou pesquisas. “Temos exceções, a exemplo das usinas Coruripe e das do Grupo Carlos Lyra, que apostam na inovação”.

Rosário, que em sua tese de doutorado em 2008 já alertava para a necessidade de modernização e investimentos em tecnologia por parte do setor sucroalcooleiro, quando as usinas viviam um novo boom, considera ser possível abstrair lições positivas da crise. “Talvez seja a grande chance de Alagoas entender o que é empresa, o que é capitalismo”, destacando alternativas promissoras, a exemplo das indústrias de plástico e de cerâmica, e a riqueza de insumos existentes no estado, como o salgema e o gás natural.

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