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Edição nº 760 / 2014

05/03/2014 - 11:42:00

CUBA uma viagem pela ilha de Fidel

Por Jorge Oliveira

Havana, Cuba – Chego ao final de uma viagem de quinze dias, de quase dois mil quilômetros pela ilha dos irmãos Casto. Volto a Cuba trinta anos depois para constatar que nessas três décadas pouco ou quase nada mudou, com exceção da tímida abertura econômica que está botando um pouco mais de comida na mesa do povo cubano, mas não o suficiente para satisfazê-lo.

O país continua pobre e estagnado, carente de modernidade e tecnologia. A educação e a saúde dão sinais de desgastes e o serviço já é criticado abertamente pela população, depois do aluguel de milhares de médicos para outros países.

Nascer em Cuba é nascer manietado e monitorado dia e noite pelo regime opressor dos Castro e a sua ditadura de 55 anos. Confesso que tenho a mesma visão do país de trinta anos atrás. Não  moraria em um país onde o cidadão é custeado pelo estado e respira o estado. Infelizmente estou impregnado pelo capitalismo e confesso que prefiro a competividade de mercado.

Em Cuba, se vivesse por lá, entre os 11 milhões de habitantes, certamente estaria entre tantos dissidentes revoltados com o regime que oprime o seu povo e cerceia sobretudo a liberdade.O comunismo é um animal em extinção. Depois da queda do muro de Berlim que unificou as alemanhas em 1989, o esfacelamento da União Soviética, do fim do regime no Leste Europeu e a devoção integral ao capitalismo do governo chinês, o comunismo virou um regime em decomposição só admirado por saudosistas jurássicos que ainda têm no estado, o pai, a mãe e o tutor legal do cidadão.

Em Cuba como no Brasil, onde ainda restam gatos pingados travestidos de comunas, a cúpula só chega à base para distribuir tarefas e doutrinar os incautos sobre um regime que deixou um rastro de atrocidades no mundo desde que surgiu há quase um século. À semelhança desse sistema político e econômico restam apenas Cuba e a Coreia do Norte, já que o Vietnã e a China do comunismo mantêm apenas a ditadura.

Em Cuba não se sabe como vive a cúpula do partido que apenas delega poderes. Depois da doença de Fidel, chega-se ao fim os longos discursos doutrinários exacerbados e de amor à pátria em praças públicas. Não se comenta como vive o ex-ditador nem sobre a sua enfermidade. A figura do comandante-chefe desapareceu da televisão e do rádio. Nas feiras de artesanato o rosto mais estampado nas camisas e nos diversos souvenires é do argentino Che Guevara que virou símbolo da rebeldia no mundo depois de morto, como se Cuba quisesse manter vivo o mito revolucionário para dar sobrevida à ditadura castrista. 

Fala-se em reduzido índice de criminalidade mas não se tem como conferir as estatísticas e os números guardados em segredo pelo regime. Como não há liberdade de imprensa, o cubano se alimenta das informações oficiais da TV estatal quase sempre redigidas por jornalistas oficiais e obedientes ao governo.

Não há acesso a internet nas casas nem nos poucos celulares, comprados em CUCs por alguns privilegiados. Certo mesmo é a estatística sobre a repressão e os presos por delito de opinião. Há pelo menos 55 encarcerados por razões políticas, depois da libertação de outros 75 por pressão da Igreja Católica.

O laser do cubano é restrito ao beisebol, o esporte oficial da ilha. Nos últimos anos, o país deixou de subir ao púlpito das Olimpíadas e dos jogos PanAmericano nas várias modalidades esportivas e perdeu a competitividade. Falam por aqui que o grande estimulador dos esportes, Fidel, já não incentiva os jovens como antigamente e, portanto, Cuba cedeu lugar a outros países emergentes no esporte. O cubano quer consumir o mínimo necessário.

Para isso faz de tudo para obter o CUC, a moeda que lhe dá liberdade de compra. Para se ter uma idéia, 12 CUCs representam o salario mínimo de 300 pesos nacionais. Com os CUCs, ele tem acesso a supermercados e a lojas que só recebem esse dinheiro onde pode comprar roupa e alimentação para suprir as necessidades básicas, além da cesta mínima ofertada pelo governo.O país, com seus calhambeques ainda trafegando pelas cidade e rodovias,  parece um museu a céu aberto.

Com a autorização do governo para a comercialização de carros, a frota de táxi se renova aos poucos. E já se vê os Hyundai da Coreia do Sul usados como táxis nas cidades. Os automóveis velhos, muitos das décadas de 1940  e 1950, são charmosos táxis usados por turistas.  Mas a vida parou para os habitantes deste país.

Quando se corta o interior da ilha, o que se vê são plantações de bananas, de cana-de-açúcar e tabaco principais produtos de exportação da ilha, além do níquel. Os grandes espaços de terra são usados pelo governo para plantação de cana. Nos micros terrenos, todos iguais em extensão, frutos da reforma agrária, os cubanos plantam para a subsistência. O que sobra já tem autorização para comercializar em feiras livres.

Pelas rodovias quase vazias, tudo que tem roda vira meio de transporte: bicicleta, carro de boi, caminhão, ônibus, charretes, micro-ônibus, carros velhos e cavalos. Não existe uma criança fora da sala de aula, mesmo as que moram nos locais mais longínquos à ilha. Os pais são punidos se não mandarem seus filhos para as escolas. 


O que é viver em Cuba?

É estar alienado do mundo, não frequentar as belas praias das ilhas porque se sente inferiorizado com os turistas hospedados em grandes resorts que ocupam todo o litoral. Em Varadero, por exemplo, com 25 quilômetros de praia, existem mais de 125 luxuosos hotéis. É servir almoços requintados nos hotéis mas ser privado da sobra, já que a todo tempo está sendo vigiado pelo capitão (gerente) revolucionário, normalmente implacável com a conduta dos empregados, todos estatais.

É abordar o turista para trocar peças de artesanato por roupa ou objetos para consumo como shampoo e peças íntimas de roupa feminina.É não poder sair do pais sem as mínimas exigências estipuladas pelo governo: casar, receber convite de fora com tudo pago ou visto de trabalho em um país estrangeiro. O governo assim impede o êxodo da ilha. Mas, na verdade, o que dificulta a saída do cubano é a condição financeira. Como nem se  sustenta com o salário que o governo oferece, dificilmente alguém tem condição de poupar para sair do país. Está na condição financeira o principal entrave para impedir que alguém saia da ilha. Nos últimos anos, os cubanos têm se beneficiado com os seus compatriotas de Miami que após dois anos podem visitar a ilha.

Uma receita extra entra na  ilha com a chegada dos parentes que vivem nos Estados Unidos. Assisti um desses desembarque no aeroporto de Havana. A emoção de quem chega para visitar parentes de quem estão afastados há anos é muito grande.  É comovente o abraço afetuoso, o carinho e alegria de quem não se via há anos.

Alegria maior é saber que esses parentes normalmente chegam recheados de dólares que vão movimentar a vida familiar e a economia do país com moeda forte. Para se ter uma idéia, as remessas de dinheiro de Miami para Cuba em 2013 chegaram a 2,6 bilhões de dólares, quase a mesma receita que gerou o turismo na ilha no mesmo ano.

O país, que cresceu pouco mais de 3% em 2013, ainda vive de filantropias estrangeiras. E que filantropias! Só o Brasil despejou o ano passado na ilha 2 bilhões de dólares, 1 bilhão para construir o porto e Mariel e a sua infraestrutura que tem tudo para virar um entreposto para China expandir seu mercado para os países latinos, do caribe e da América Central. A Venezuela, entretanto, é o principal parceiro comercial de Cuba, política adotada pelo finado Hugo Chávez com a proposta de espalhar sua revolução bolivariana para os países vizinhos.

E a ilha de Fidel se beneficia dessa política petrolífera. A Venezuela vende petróleo barato e ainda financiou a construção de refinarias, principalmente a maior delas em Varadero. Não à toa, cartazes em frente ao aeroporto internacional dão as boas vindas aos visitantes. Neles estão estampados os rostos de Fidel, de Chávez e Jose Martí, revolucionário da independência cubana.

A China e o Canadá também são outros parceiros comerciais da ilha de Fidel que desde 2006 tem na presidência o general Raul Castro.A abertura da economia hoje movimenta o comércio de Cuba em CUCs. Negocia-se na ilha, sem a intervenção do estado, imóveis, carros, artesanatos e produtos agrícolas ao setor turístico, abastecendo os hotéis de luxo.

Os microempresários, com a abertura econômica, se transformaram em um ano na grande força de trabalho. Eles saltaram dos 148 mil para 333 mil. Outros nichos que empregam e movimentam a economia são o dos Paladares, micros restaurantes em casas de famílias que já representam 6% da força de trabalho ativa do país, e o da hospedagem doméstica. Moradores transformaram suas habitações em pequenos quartos que cobram entre 20 e 30 dólares por pernoite, muito procurados por turistas que fogem dos preços caros dos hotéis na faixa de 350 a 150 dólares em apartamentos duplo.

Mesmo com as dificuldades na economia provocadas desde o início dos anos de 1960 pelo bloqueio econômico dos Estados Unidos, Cuba mantém um estado estabilizado economicamente, como mostram os números da CEPAL – Comissão Econômica para América e Caribe.

O PIB cresceu 3% e pode se repetir em 2014. De janeiro a junho do ano passado, o setor imobiliário deu um salto de 19,7% depois que o governo autorizou o comércio de compra e venda de casas e de novas construções pela iniciativa privada.  A taxa de desemprego de 3,8% repetiu a de 2012. E com a crise na Europa a taxa de ocupação nos hotéis ficou em 2 milhões e 800 mil, menos 200 mil da previsão estimada pelo governo.A ironia de tudo isso é que mesmo com o bloqueio econômico, os Estados Unidos ainda são o grande padrinho financeiro da ilha. Os cubanos que moram nos EUA remetem para Cuba anualmente 2,6 bilhões de dólares, dinheiro que supera a exportação do níquel, uma das principais atividades econômicas da ilha além do turismo, tabaco e produtos biotecnológicos que fecharam 2013 com a venda de 1 bilhão de dólares para o exterior.

Esses números, porém, não chegam à população de Cuba privada da mínima informação sobre o seu país, prática adotada nos regimes de força como o da sanguinária ditadura da Coreia do Norte e da China. A queda do comunismo, depois do muro de Berlim, espalhou o capitalismo onde existia o comunismo.

Aliás, o capitalismo já sacrificou muito país e líderes no mundo todo, mas é inegável que também contribuiu para modernizar a sociedade e desenvolveu tecnologia que revolucionou o universo. O regime é selvagem, como dizem os socialistas, mas é o único que sobrevive mesmo transformando sociedades inteiras em focos de miseráveis e provocando a desigualdade social.

 O único cara que tentou entender  toda essa confusão ideológica e humanizar a bagunça foi traído por um de seus principais conselheiros e acabou açoitado e pregado numa cruz. Há mais de dois mil anos,  foi negociado por um intermediário do capitalismo por 30 moedas. De ouro, claro.

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