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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 758 / 2014

10/02/2014 - 11:24:00

Jorge Oliveira

O espião está no gelo

Rio - Gilberto Carvalho, o secretário-geral da Presidência, espião de Lula no Planalto, não tolera a Dilma e a recíproca parece verdadeira. Carvalho também não tolera povo: “Bom, fizemos tanto por essa gente, e agora eles se levantam contra nós”? Isso mesmo, é assim, com desprezo e arrogância, que ele se referiu ao contribuinte, numa tradução livre: povo, povão, zé povinho, gentinha, gentalha, miseráveis, pedintes numa palestra que fez em Porto Alegre, onde se mostrou magoado com “essa gente” que vai às ruas lutar pelos seus direitos e pela moralização do país.

 

Carvalho acha que as esmolas e o pão e circo distribuídos pelo PT iriam calar a boca da população descontente com o rumo do país, daí a sua frustração por não ter silenciado as vozes inquietas das ruas com as migalhas do poder.

 

 À Dilma, Carvalho – que já anunciou que sairá do Planalto – tem reservado alguns comentários ácidos numa época sensível de campanha eleitoral. Numa de suas declarações, quando o Planalto festejava pesquisa fajuta que indicava a Dilma ganhando com larga vantagem, ele botou água no chope dizendo que as eleições iriam para o segundo turno. Ou tinha os números reais ou estava torcendo contra, quando incentivava a oposição a intensificar a campanha para confrontar a presidente.

 

Agora, numa palestra que fez em Porto Alegre, foi mais longe. Disse que o modelo petista de governar dá sinais de desgastes e que é necessário debater um novo projeto.Pela primeira vez, um alto integrante do governo petista reconhece que a política de pão e circo está chegando ao fim ao afirmar que “um novo projeto de governo precisa ir além da inclusão social e distribuição de renda”.

 

Enquanto a oposição, por razões eleitoreiras,  silencia, tem medo de debater o assistencialismo do Bolsa Família, o próprio PT faz autocritica e pede mudança do modelo que deu três mandatos presidenciais ao partido.

 

Gilberto Carvalho fez  essas declarações, publicadas discretamente nos jornais, em um debate sobre crise do capitalismo e democracia, no Fórum Social Temático de Porto Alegre.

 

Ali, ele também confessou outro fracasso da Dilma ao dizer que o governo foi surpreendido pelos protestos de 2013, e que falhou ao não garantir a qualidade dos serviços públicos a uma população cada vez mais exigente.

 

E não teve receio em contrariar a cúpula do governo e do seu próprio partido ao enfatizar que “não há duvida nenhuma de que os sinais de desgastes estão dados. As conquistas importantes nós tivemos. Foram importantes, mas foram absolutamente insuficientes”. Essas críticas mostram que existe um conflito dentro do Palácio do Planalto entre os lulistas e os dilmistas.

 

Os lulistas nunca acreditaram na pureza petista da Dilma, que fez carreira política no PDT; e os dilmistas querem de toda forma se ver livre do monitoramento dos lulistas que impede a Dilma de governar.

 

Assim é que perderam espaço lá dentro o próprio Gilberto Carvalho e Marco Aurélio Garcia, o aspone que tenta até hoje conduzir a política externa brasileira à sua maneira xiita. Para enfrentar o poder dos dilmistas no Planalto, Lula jogou sua última cartada: botou lá dentro Aloísio Mercadante, político experiente de faro fino e habilidoso. Com o Mercadante dando as cartas no principal ministério do governo, Lula aumenta mais ainda o seu poder na administração.

 

E o mantém como coringa para  provável candidato à presidência caso se torne agudo o fracasso da administração da Dilma neste primeiro semestre. Lula pensa em repetir com Mercadante a fórmula que deu certo com a Dilma que chegou à presidência depois de um estágio na Casa Civil.

Bacalhau  à lisboeta 

Ao fazer uma escala “técnica” em Portugal para comer seu bacalhau preferido, como aconteceu em outra viagem recente, a presidente Dilma e sua comitiva de mais de trinta aspone e puxa-sacos variados parecem não dar muita importância aos gritos das ruas que berram por menos ostentação e pela transparência dos gastos na Copa do Mundo. Alheia ao clamor popular, a presidente esbanja dinheiro público em luxuosos hotéis e restaurantes em escala fora da agenda oficial. 


Sem fundo

Apenas pela suíte no Ritz, o contribuinte vai pagar 27 mil reais para hospedar a sua presidente a caminho de Cuba. Em Havana, ela inaugura obras do porto de Mariel, onde o BNDES enterrou quase 700 milhões de dólares a fundo perdido, em um contrato com cláusulas de sigilo.  A despesa total para os auxiliares da presidente, que reservaram dois andares no hotel Tivoli, um dos mais caros de Lisboa, não será divulgada pelo Planalto que decidiu carimbá-la como confidencial. Não se saberá também o custo de permanência dessa turma na capital cubana, uma das mais caras do mundo, onde o visitante só gasta em dólar. 


Vazio

É chocante saber que a presidente lotou o Boeing para ir a Davos com uma comitiva de mais de quarenta pessoas. Lá, fez um discurso, considerado por economistas internacionais, pobre, malajambrado e vazio, para uma plateia que hoje não dá a menor importância a economia brasileira administrada pelo confuso Guido Mantega, o mágico dos números. Nunca na história desse país tivemos  presidente tão inexpressivo representando o seu povo no exterior, como comentaram alguns analistas. Os tecnocratas que em tese estariam ali para arrumar o pensamento fragmentado da Dilma,  não perderam a oportunidade para se fartar nos freeshops com cartões corporativos, sustentados pelo contribuinte.

Transparência?

O brasileiro, que paga a conta, não tem acesso a esses gastos da caravana no exterior, o que contraria o discurso da Dilma que se dizia em 2011, depois da posse, empenhada na transparência dos gastos públicos por lei sancionada por ela própria (a de Acesso à Informação). Sabe-se, portanto, que de 2003 a 2010, as despesas secretas com cartões corporativos de Lula, seu antecessor, durante os dois mandatos, foram de R$ 44,5 milhões, dos quais R$ 31,6 milhões para pagar hotéis e locação de carros.


Os gastos

Os últimos dados do governo da Dilma referem-se até abril de 2013, antes do selo confidencial dos gastos. Até aquela data, a presidente já tinha torrado R$ 15,2 milhões com o cartão corporativo. A tendência, no entanto, é que essas despesas aumentem à medida que se aproxima a reeleição. O ano passado, Dilma  viajou 71 dias pelo Brasil, um recorde para os seus 46 dias de 2012. 


Sigilo

O carimbo de secreto dessas despesas sepulta as esperanças do brasileiro de saber para onde está indo tanto dinheiro no exterior e aqui para os gastos da presidente e de seus privilegiados assessores. O Itamaraty garante que os número serão revelados depois do mandato da presidente Dilma, mas até agora os gastos do Lula, por exemplo, continuam guardados a sete chaves. Cabe ao próprio Itamaraty prolongar a abertura dessas informações por até 15 ou 20 anos se assim lhe convier.


Os gritos

Ao ignorar as manifestações e os apelos das ruas por uma administração austera que respeite os gastos públicos, o governo está brincando com  fogo – literalmente. Ao perder o controle dessa convulsão social que pode se alastrar pelo país, certamente lá na frente vai procurar o caminho mais fácil para silenciar os gritos dos sem-vozes: a repressão.

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