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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 754 / 2014

14/01/2014 - 16:05:00

Contra as desigualdades

Ruy Martins Altenfelder Silva*

Ao passar pelo crivo de especialistas e equipes multidisciplinares, a riqueza de dados coletados pelos censos demográficos a cada dez anos gera uma apurada radiografia dos vários ângulos do País.

Um dos mais recentes subprodutos do Censo de 2010 é o Atlas do Desenvolvimento Humano Municipal 2013, que retrata as menores unidades da Federação numa perspectiva que vai além do crescimento econômico. A conclusão do estudo confirma a percepção empírica da maioria da população: o Brasil vem crescendo, mas, em que pesem os avanços sociais, persistem ainda vergonhosas desigualdades. Ou seja, não é para todos os brasileiros que os bons resultados da economia se traduzem em benefícios concretos, como mais saúde, educação universalizada e de qualidade, maior participação política,  justa distribuição de renda e oportunidades equitativas de trabalho.

Ao focar o microcosmo da realidade nacional, o Atlas revela disparidades que corroem parte do entusiasmo provocado pela notícia de que o Brasil, com pontuação de 0,727 (numa escala que vai de 0 a 1), finalmente ascendeu à faixa dos países com alto desenvolvimento humano – um indicador que leva em conta três fatores: expectativa de vida ao nascer, educação e renda. Isso porque, na leitura desalentadora do mapeamento, convivem municípios com renda per capita que variam de R$ 1,7 mil a R$ 210. Alguns ostentam mais de 80% dos adultos com o ensino fundamental completo contra outros com menos de 13%.

Ou, ainda, uma Região Sul, com esperança de vida de 78 anos, aparece ao lado de um Nordeste, onde a expectativa de vida de uma criança ao nascer não chega aos 66 anos.Diante desses comparativos, resta a constatação de que os avanços do País merecerão calorosos aplausos apenas quando forem adotadas políticas públicas que estendam as igualdades sociais a patamares compatíveis com outros  países que integram a faixa de alto desenvolvimento humano.

Um dos mais relevantes pontos a atacar é abrir a um número bem maior de jovens a oportunidade de ingressar no mercado de trabalho motivados por perspectivas de progresso pessoal, de renda e de condições de vida. Isso porque é sobre os ombros das novas gerações que recairá a tarefa de sustentar os níveis de desenvolvimento de uma nação que já ultrapassou os 200 milhões de habitantes e continuará a crescer.Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) datado de 2010, cerca de 1,5 milhão de jovens, com idade entre 19 e 24 anos – a maioria concentrada nas faixas mais pobres – nem trabalham, nem estudam e nem procuram emprego.

A baixa escolarização e, por consequência, deficiência na qualificação para a conquista de um emprego os empurram para a nova categoria batizada de “nem-nem-nem”. Trata-se da face mais perversa de um problema detectado pelo Dieese no final de 2011: metade dos jovens de 18 a 20 anos estava sem emprego, mesmo naquele momento de mercado de trabalho altamente aquecido.A questão jovem, insuficiente levada em conta, deve ser uma das grandes prioridades nacionais, até mesmo, entre outras razões, para assegurar a sustentabilidade do desenvolvimento.

A cooptação pelo crime organizado, visível nas estatísticas policiais, ou a busca por ocupações informais, como única opção de sobrevivência pessoal e familiar, só fazem aumentar a vulnerabilidade dos milhões de brasileiros condenados à exclusão no estratégico momento em que chegam à fase produtiva da vida.  

O círculo vicioso será quebrado somente com a oferta a esses jovens de um projeto de vida, que passa não só pela inclusão escolar e assistência á família, mas também pela formação para o trabalho e a cidadania, dotando-os da autonomia indispensável para o resgate da autoestima e para a realização pessoal.

Sem dúvida, está aí um dos maiores desafios colocados à frente do País. Por isso, todas as iniciativas, sérias e responsáveis, destinadas a oferecer um futuro melhor aos jovens devem ser estimuladas. Principalmente aquelas que, testadas, comprovaram sua força inclusiva, como é o caso do estágio e da aprendizagem.

O balanço de 49 anos de atuação do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), com presença em todo o território nacional, não deixa dúvida quanto aos impacto saudável das duas modalidades de formação na empregabilidade e na construção de um futuro promissor ao jovem: além de assegurar uma renda financeira que auxilia a permanência na escola e reforço ao orçamento doméstico, ambas constituem uma eficaz porta de acesso ao mercado de trabalho, dimensionada por taxas de efetivação superiores a 50%. *Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do CIEE e da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ).

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