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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 753 / 2014

08/01/2014 - 10:13:00

O riso e o siso

Cláudio Vieira Advogado e escritor membro da Academia Maceioense de Letras

Lembro-me de, na adolescência, alguém ter-me dito que, segundo a miologia, o sorriso requer menos contratura muscular da face, portanto menos esforço, que a zanga, a raiva, o ódio. O riso é, então, o melhor para a conservação facial, bem como para todo o organismo humano. Por essas razões tão importantes, pensadores, poetas, escritores em geral, vêm-se ocupando através dos tempos, dessa reação exclusivamente humana. Afinal, só os animais racionais sorrimos e temos a consciência disso.

Os filósofos socráticos tinham como certo a busca da felicidade como objetivo primeiro de vida, para dizermos do seu pensamento de forma bem simples. Mas, malgrado muitos hoje vejam no sorriso sinais reveladores do estado feliz, para o complexo pensamento socrático não seria assim de tanta simplicidade. Sócrates, segundo relato de Platão em a República, teria dito a Adimanto que os jovens “não devem ser amigos de rir, porquanto quase sempre que alguém se entrega a um riso violento, tal fato causa-lhe uma mudança também violenta”, ou seja, o riso excessivo, sem sentido, resulta em transformações do caráter.

Eis porque acrescenta o Filósofo: “(...) não é admissível que se representem homens dignos de consideração sob a ação do riso”. Assim, o riso moderado seria uma manifestação íntima da felicidade; jamais o sorrir despudorado.Há outros tipos de sorriso do qual se ocupam pensadores e poetas. O sorriso pode, por exemplo, ser revelação de estado de profunda tristeza, como em Antônio Vieira: “A tristeza quando é moderada faz chorar, quando excessiva, faz sorrir”. Ou revelará certo conformismo com os revezes da vida, como na ária RIDI PAGLIACCIO, de Ruggero Leoncavallo; ou será o sorriso nostálgico de Charles Chaplin (Smile); ou aquele de desencanto encontrado por Vinicius de Moraes (Soneto da Separação); ou ainda aquele morbidamente irônico do poeta paraibano Augusto dos Anjos (Monólogo de uma Sombra). Em suma, o sorriso será sempre assunto candente.

Abstraindo-me desses últimos tipos de sorriso, ou rejuntando-os todos, quando vejo pessoas que até pouco tempo digladiavam de forma até cruel e aética, massacravam-se moralmente, só não chegando às vias de fato por lhes restar alguma civilidade, ou faltar-lhes alguma coragem pessoal, quando vejo tais pessoas juntas, ridentes, simulando felicidade, intuindo eu que amanhã estarão novamente em campos opostos, engalfinhando-se, invadindo até a sagrada intimidade, recordo certamente aquela antiga lição de Sócrates; todavia, mais mundanamente lembro-me do vetusto adágio popular: “muito riso, pouco siso”. 

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