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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 752 / 2013

31/12/2013 - 09:28:00

O rio Ipanema está morrendo

Djalma de Melo Carvalho Membro da Academia Maceioense de Letras

Residindo em Maceió desde 1975, costumo visitar Santana do Ipanema de vez em quando para participar de eventos festivos, sobretudo os de caráter social e cultural. Esse retorno à cidade natal é feito com certa dose de nostalgia, porquanto aproveito a oportunidade para rever e abraçar velhos amigos, familiares, contemporâneos de colégio e colegas aposentados do Banco do Brasil.

Este ano, por ocasião da festa da padroeira, da ponte que liga o centro da cidade ao bairro Domingos Acácio, o olhar de tristeza fixou-se nas águas verdes e apodrecidas do Poço dos Homens, logo ali no leito do rio Ipanema. Assim desolado, vi o primeiro sinal da agonia do rio que está morrendo. 

Girando o foco para a nascente do rio, vê-se o Poço do Juá nas mesmas e deploráveis condições daquele. Rio acima e rio abaixo, o cenário indica-nos um tortuoso caminho verde formado entre o pedregulho aflorado. Ali cresceram mato e capim que hoje servem de pasto para animais sem porteira.

Os rios, ao longo dos séculos de história, serviram de caminho natural aos desbravadores e a tropas imperiais invasoras. Aqueles em busca dos sertões, estes em conquistas territoriais. Na verdade os rios deram vida às cidades fundadas às suas margens. As enchentes, por seu turno, sempre foram motivo de festa para as populações ribeirinhas, aqui e alhures, excluídas certamente aquelas que provocaram tragédias. Também os rios serviram de inspiração a poetas, músicos e escritores. Strauss Jr, por exemplo, inspirou-se no rio Danúbio para compor a clássica valsa Danúbio Azul.  

José Lins do Rego, referindo-se ao rio Paraíba do seu estado, escreveu: “O povo gostava de ver o rio cheio, correndo água de barreira a barreira. Porque era uma alegria por toda a parte quando se falava da cheia que descia.” O poeta Tobias Medeiros também escreveu: “Eu te vejo, ó esperança, vindo de longe, rolando impetuosamente por cima de tudo. É a enchente do Ipanema enchendo corações tristes e secos de ilusões.”Quem diria? Sou testemunha de manifestações de alegria, festa mesmo, dos santanenses quando das históricas enchentes do rio Ipanema. Lembro-me da grande cheia de 1960, que repetiu a de 1941, segundo dizem. O museu da cidade guarda fotos históricas de ambas. A última enchente conhecida ocorreu em 1º de janeiro de 2002. 

Cadê os desafiadores remansos vencidos pelos afoitos canoeiros Toinho e filhos? Cadê o povo na Ponte do Padre a admirar o espetáculo das enchentes? Depois das barragens construídas a montante, a partir delas o rio Ipanema começou a morrer numa agonia desesperada. Está morrendo, definhando, pedindo socorro. O socorro que lhe posso prestar, ou defesa que dele posso fazer, será o de digitar textos, juntando palavras e frases, exercitando a sintaxe. Como santanense saudosista e cronista, julgo estar fazendo a minha parte.O Canal do Sertão, que parece obra ciclópica, tão decantada pelos políticos em tempo de eleições e que já engoliu milhões de reais, poderia salvar o rio Ipanema. 

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