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Isaac Sandes
Opinião

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Por Isaac Sandes

Memória, consciência e vida de Louis Lavelle

Isaac Sandes

30/03/2019 08h08 - Atualizado em 30/03/2019 08h08

Olavo de Carvalho
DivulgaçãoOlavo de Carvalho

Ao examinar as aulas do filósofo Olavo de Carvalho em busca de assuntos ou temas que me despertassem interesse, deparei-me com uma onde se estuda a biografia, o pensamento e a obra de Louis Lavelle.

Em breve resumo, Louis Lavelle foi um filósofo católico francês, nascido em Saint-Martin de Villeréal em 1883 e morto em Parranquet em 1951.

A região em que Louis Lavelle nasceu deu à humanidade outros filosósofos e pensadores a exemplo de Montaigne, Fénelon e Maine de Biran.

Entre 1924 e 1940, ensina em diversos liceus e cursos particulares de Paris e, em outubro de 1941, é indicado para a cadeira de filosofia do Còllege de France, chegando a ocupar cadeira na Academia das Ciências Morais e Políticas.

Em suas obras – Tratados de filosofia, Obras morais; crônicas filosóficas e obras fragmentárias –, entre outras coisas, dedicou-se à filosofia, estudo da mente e suas conexões com a ciência cognitiva. Em razão de sua profundidade e saber, foi chamado por A.D. Sertillanges de “O Platão de nosso Tempo”.

Em toda sua vida, dedicou-se ao estudo do enigma essencial que envolve o homem e sua existência, afastando-se, por assim dizer, do brilho fácil e postiço da fama.

Absorve influências de Octave Hamelin e René Descartes, mas sua genialidade vira tais influências pelo avesso.

Muito resumidamente, foi isto que apreendi na mencionada aula sobre a pessoa de Lavelle. Quanto ao seu intelecto e obra, necessário se faz dedicar uma vida inteira ao seu estudo para que se apreenda minimamente o que ali está contido.

Nesse breve momento de contato com o pensamento do filósofo, não pude deixar de fazer uma particular observação em seu discurso sobre o enigma essencial do eu e da memória humana, no que isto possa representar em relação ao portador do Mal Alzheimer.

O que pode nos parecer desconexo em termos de identidade dos assuntos, na verdade, ao bem examinar-se, torna-se conexo quando soubermos que ambos têm relação com o eu e a memória de cada sujeito, e sua condição humana.

Segundo Lavelle, o poder da memória define a verdadeira essência do eu. A consciência do que somos, nossa identidade surge da interação entre o eu, o ser e o objeto (mundo exterior).

O mundo exterior ou dos fatos, como no entender de Lavelle é instântaneo e, por isso, tais fatos, à medida que existem imediatamente se evanescem e são sobrepostos por novos fatos. Cabe à memória guardar e transformar tais fatos em ato de consciência que constrói seu eu. Assim, sem memória e sem esse eu consciente contido na memória você não existe. Ou seja, a memória é a própria e única substância do eu.

Por tal, é de se adivinhar o drama e o sofrimento que acomete uma pessoa que, aos poucos, vai perdendo essa substância e esvanecendo a consciência de si mesmo. Esse é o drama e sofrimento inicial do portador do Mal de Alzheimer. Até que, ao final da doença, esvaziado de todo seu conteúdo de memória e consciência, torna-se um robô de carne e osso com duas janelas nos olhos que não servem nem para introjetar percepções, nem para transmitir sensações ou seu sentir.

Em seu mundo que é uma folha em branco, o portador do Mal de Alzheimer, não tem passado, presente nem futuro, uma vez que cada um desses estados são todos originários de conjunto de memórias.

O passado, como o próprio nome o diz, é um acervo de memórias, o presente é o momento que vivemos ao usar as percepções dos fatos e os compreendemos em face de nossas memórias anteriores e o futuro, o futuro para Lavelle, é, em última análise, um passado antecipado já que só pode ser elaborado com elementos e fatos e percepções que estão na nossa memória.

Assim, ao contrário do que afirma Mallarmé em um dos seus poemas, para o portador de Alzheimer o momento de sua morte não significará a completitude de sua essência. Ele terá completado essa essência ainda em vida, mas vivendo como um espantalho.

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