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José Mauricio Brêda
Opinião

José Mauricio Brêda

Por José Mauricio Brêda
OPINIÃO

Mirandês – segunda língua oficial de Portugal

05/10/2020 13h01

“Hai lhénguas ‘que tos ls dies se muorren i hai lhénguas que to ls dies renácen. Hai lhénguas cun sous scritores i hai lhénguas de cuntadores. Hai lhénguas que son de muitos, i hai lhénguas que poucos usan. Mas todas eilhas, se son lhénguas de giênte, son cumplexas na mesma”.

Desnecessária a tradução, uma vez que as semelhanças com o nosso idioma são evidentes. Mas, peço licença aos filólogos para fazer essa viagem que nada mais é que um trabalho de pesquisa, motivado pela curiosidade e o amor pelo que o vinho traz atrelado a ele; uma esteira infindável de conhecimento. E, desta vez, a paixão leva-me a descobrir fatos interessantes da etnografia portuguesa. Tentei, entre livros e internet, subir o Rio Douro além de onde já conhecia.

Quem, de vinho, mesmo que um pouco, goste ou falar ouviu, sabe da riqueza desta região; vem daí, além de grandes dourenses de mesa, um dos mais conhecidos vinhos do mundo, o vinho do Porto. Com o incremento do turismo, são oferecidos belos passeios subindo ou descendo aquele rio. Do alto Douro à sua foz necessária se fez a construção de várias represas hidroelétricas com eclusas paralelas facilitando a navegação. Outra forma é por via ferroviária, nos chamados “comboios” portugueses.

E lá vou eu, entre comboios e eclusas, partindo das cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, atingindo, mais acima, Peso da Régua, distrito de Vila Real, tentar conhecer essa região vinícola totalmente diferenciada das demais, pois sua topografia, com desníveis acentuados, ensejou aos desbravadores dinamitar suas encostas rochosas para que fossem feitos grandes terraços utilizados no plantio das parreiras. Incorporo-me à sua paisagem como se nela estivesse. Também se viaja pela leitura. E, nessa subida, lá em cima, quando o Rio Duero, espanhol, faz fronteira com os dois países e se torna Douro para os portugueses, encontra-se em sua margem direita Miranda do Douro.

Norte de Portugal, nordeste e sub-região de Trás-os-Montes, com apenas nove mil habitantes, é sede de “concelho” e do distrito de Bragança. Diz-se que tem nove meses de inverno e três de inferno – verão quente e seco – e os de inverno são rigorosos com frequentes nevadas. Miranda do Douro, sua fundação remonta do século XIII, mais precisamente de 1286. Lá está o berço do Mirandês. 

Em 1882, o filólogo, arqueólogo e etnógrafo português José Leite de Vasconcelos, no seu “Dialecto Mirandês”, afirmava: “Não é o Português a única língua usada em Portugal... fala-se aqui também o Mirandês”. Como diz parte do texto de Apresentação do Projeto Lei de reconhecimento dos direitos linguísticos da Comunidade Mirandesa na Assembleia da República, Lisboa, de 17 de setembro de 1998: “La Lhéngua Mirandêsa, doce como una meligrana, guapa i capachana, num yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência. Sin se subreponer a la ‘lhéngua fidalga i grabe’ l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra. Hoije recebiu bida nuôba”. 

Em junho do próximo ano comemorar-se-á os vinte e dois anos de sua oficialização que, a partir de 1999, pela Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, tornou-se a Segunda Língua Oficial de Portugal. Ensina-se hoje nas escolas de Miranda do Douro e em algumas freguesias (municípios) como disciplina opcional. Pertencendo ao grupo das línguas românicas, originou-se no latim vulgar, falado no norte da Península Ibérica. 

Mesmo com um longo processo de formação do galego-português e do castelhano, com denominação especifica de leonês, sofreu maior influência do português, por ser falada em território luso, o que não deixou, pelo isolamento da região em relação ao resto do país, de criar afinidades culturais com localidades próximas do vizinho espanhol.

Sem uma escrita específica, pois à época escrevia-se exclusivamente em latim, é possível encontrar testemunhos escritos da existência e persistência desse antigo agrupamento linguístico. Porém, para sobreviver como língua, tem literatura oral rica: romances de tradição oral, representações teatrais, fábulas, quadras, adivinhações, provérbios, anedotas, diálogos e canções.

Mantém-se viva pelo fato de ser falada por cerca de quinze mil pessoas, entre residentes e vários emigrantes saudosistas. Continua sendo o idioma do dia a dia no comércio, na família e entre vizinhos. Como dizia José Leite de Vasconcelos, “é a língua do campo, do trabalho, do lar e do amor entre os mirandeses”.

Mas o mundo moderno vem ameaçando este idioma. Com o avanço da globalização, onde a televisão e a internet, principalmente, estão em nossos lares, não poderiam deixar de estar também em Miranda do Douro, tornando cada vez mais difícil incutir na nova geração o uso e a cultura da sua língua. Para tanto vêm sendo tomadas algumas medidas em sua defesa, que vão desde a publicação de livros, revistas e jornais sobre e em mirandês, à realização de um festival anual da canção e de um concurso literário, até a tradução de todas as placas toponímicas da cidade – Rue de L Cruzeiro (Rua do Cruzeiro ), sem esquecer de criar jornais na net e uma Wikipédia em mirandês, a Biquipédia. 

O reconhecimento da língua mirandesa pela nação lusitana é um testemunho evidente de que “só pode escrever sua história o povo que identifica sua cultura”.

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