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José Mauricio Brêda
Opinião

José Mauricio Brêda

Por José Mauricio Brêda
OPINIÃO

Uma paixão antiga

17/08/2020 13h01

Perguntei-me se não seria pretensão de minha parte escrever mais sobre vinhos. Porém, pensei um pouco e vi-me na situação de quem, gostando de vinho e sempre curioso por novidades, quer levar para aqueles que também o apreciam, mas não têm a oportunidade de pesquisar, uma compilação modesta de alguns fatos e notícias ligados à enomania. Essa paixão foi adquirida há cinquenta e seis anos, quando comecei a conviver com meu saudoso sogro, Prof. Ib Gatto Falcão, que me fez conhecer mais uma de suas grandes virtudes.

Mas, falar sobre vinho sempre é prazeroso. Não só pelo seu cheiro e gosto, mas pelo que ele pode nos proporcionar de conhecimentos. Indo às suas origens, no Velho Testamento, vemos citações como: “... florescerão como uma videira, cuja fama igualará a do vinho do Líbano” – OSÉIAS (14, 9) – e ainda em ISAÍAS (1, 32) – “De prata te transformaste em escória, de vinho puro, em vinho aguado”, ou no Novo Testamento, em LUCAS (5, 39), quando Jesus, fazendo juízo de valor sobre a bebida, compara o vinho novo e o vinho velho: “Ninguém que tenha bebido do vinho velho quer beber do novo; pois diz: o velho é melhor”, ou, ainda na Carta de Paulo a Timóteo (5, 23): “Deixa de beber só água, mas toma um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas freqüentes indisposições”. Vemos o néctar migrando do entorno do Mar Vermelho para a Europa e todo o mundo. Porém, o que mais me chama a atenção é exatamente a sua atualização constante, resultado desta facilidade de transferência de continentes.

Os grandes vinhos dos anos 70 eram muito caros e com muita fama, incluídos aí os franceses, reservados apenas para os de mais posse. Porém, foi exatamente nesta década que o vinho se espalhou, não só como produto em si, mas como objeto de consumo com qualidade, atingindo também, e aí o mais importante, outras faixas que até então estavam impossibilitadas de apreciá-lo. Enquanto o comércio mundial teve um aumento e alguns países até o descobriram, em outros, produtores tradicionais viram seu consumo interno cair de mais de cem litros “per capita”, ao ano, para menos da metade, em outros tempos. 

É quando aparecem Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e Argentina. A explicação que se tem é o uso de tecnologia, desde o plantio da uva até sua transformação em vinho. Aí se incluem novas técnicas de elaboração, como fermentação a frio, aumento da densidade do plantio, poda verde, redução de rendimentos, movimentação do mosto por gravidade, bombas peristálticas, pesquisas de novos clones de uvas, aprofundamento do estudo do terreno e clima, amadurecimento em madeira nova, tecnologia de ponta e até o puro “marketing” na comercialização.

Por falar em “marketing”, entra um capítulo à parte, que é o rótulo. Até então, os rótulos europeus não designavam a uva ou uvas que compunham o vinho. Hoje, algumas vinícolas, a maioria de Portugal, já o fazem. Os conhecedores sabem que um vinho da Borgonha (França), sendo branco, é da uva Chardonnay, se tinto, da uva Pinot Noir. Outras regiões europeias trazem o mesmo princípio, ou seja, a simples menção da região já diz de qual variedade é feito o vinho. Como disse, os interessados sabem desta informação, que o Novo Mundo trouxe com simplicidade, para todos. 

Pegue-se uma garrafa de qualquer vinho californiano, chileno, africano, neozelandês ou argentino e ver-se-á impressa no rótulo a cepa ou cepas que compõem aquele vinho. Mas saliente-se que, ainda hoje, os grandes “chateaux”, como Hout Brion, Latour, Lafitte, Margaux e Mouton-Rotschild, para citar apenas alguns, não se renderam a esse costume, até porque estão acima do que acontece entre o céu e a terra.

Isto tudo nos trouxe um vinho chamado moderno, que segue um padrão mais frutado, alcoólico, macio, com madeira, menos ácido e, já pronto para beber, ou seja, sem necessidade de envelhecimento. São tintos geralmente com muita cor, bom nariz e excelente paladar. Toda esta mudança fez influenciar o pensamento dos grandes produtores mundiais, principalmente em Portugal, onde, ainda hoje, sentimos acompanhar essa tendência.

Mas, o que me chamou mais a atenção foi quando, relendo uma edição da Revista de Vinhos, publicação portuguesa da Média Capital Edições Ltda., vejo uma entrevista com o herdeiro e administrador de uma das maiores vinícolas de Portugal, a José Maria da Fonseca. Para os que gostam de vinho, é a produtora do Periquita e do Periquita Clássico, produzido com a uva que lhe dá o nome e é também conhecida como Santarém ou Castelão Francês nas Terras do Sado e dos notáveis José de Souza e José de Souza Mayor, sem falar nos Domini e Domini Plus, após associação com a van Zeller. 

Domingos Soares França, recebendo o legado dos seus avós e após curso do Liceu de Setúbal, foi para os Estados Unidos, em 1974, estudar no Menlo College, tipo inglês, disciplina rígida, onde fez a base; matemática, física, química, inglês, etc., indo, após para Davis, onde fez, durante dois anos e meio, o curso de Fermentação (na época, não se falava em Enologia). Voltando a Portugal, só no ano seguinte conseguiu de seu pai o crédito de chefiar a enologia, função até então exercida pelo mesmo, não sem antes aprender “como se fazia vinho cá na terra”. ​A partir daí, sempre voltava aos Estados Unidos, para acompanhar a evolução da vitivinicultura, tomando contato com novas tecnologias. E, pasmem, é dele a afirmação, à época, que segue: “A Europa está caduca e velha e quem quiser vender deve optar por uma postura próxima do Novo Mundo, já que é este que vende e domina os principais mercados” e, ainda, “podem acusar-me de estar a destruir a tipicidade mas não sei o que isso é”.

São a uva e o vinho sempre em evolução, trazendo cada vez mais emoções, como a guerra travada entre as duas grandes escolas do Velho e Novo Mundo – percebendo que precisavam buscar, em uma, a experiência e o amor pelo vinho e, em outra, a tecnologia e o aprimoramento necessários a fazer com que ambos possam proporcionar a nós outros grandes vinhos, para nos inebriar com a “sinfonia da música líquida”, como disse o médico e enólogo autodidata paulista José Ruy Sampaio, falecido recentemente vítima do coronavírus.

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