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José Mauricio Brêda
Opinião

José Mauricio Brêda

Por José Mauricio Brêda
OPINIÃO

A excentricidade do gênio

29/06/2020 13h01

A excentricidade do grande poeta português Fernando Pessoa caracteriza-se, evidentemente, pela criação dos seus heterônimos. Diz a Heteronimia, estudo desses autores fictícios, que, ao contrário de pseudônimos, os heterônimos constituem uma personalidade. Seu criador, conhecido como “ortônimo”, assume outras personalidades como se pessoas reais fossem. Pesquisas indicam que, além daqueles mais conhecidos, como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, outros mais de cem desses personagens formaram o quadro desses semi-autores. 

Pessoa dizia: “Como escrevo em nome desses três? Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber, ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê”. Todos esses têm data e local de nascimento e uns formação escolar e profissão. Ricardo Reis, por exemplo, formou-se em medicina e veio morar no Brasil. Dos mais notórios, foi o único que Pessoa deixou “vivo”, propiciando ao Nobel de Literatura José Saramago escrever o livro “O ano da morte de Ricardo Reis”. 

Não é de se estranhar, portanto, que o poeta, chegando atrasado a um encontro com o escritor José Régio, disse que era um dos seus heterônimos, Álvaro de Campos, e pediu perdão por Fernando Pessoa não ter podido comparecer. Imaginem a perplexidade de Régio frente a frente com Pessoa. Nessa esteira de esquisitices tem um outro encontro marcado, desta feita com a nossa poetisa Cecília Meireles no Café A Brasileira, em Lisboa. Após esperar duas longas horas, Cecília voltou para o hotel onde encontrou um livro do poeta autografado e um bilhete onde dizia ter lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.

 Tudo isso fica claro na carta escrita a sua tia Anica em 24/06/1916 aos 28 anos. (Fernando Pessoa - Agenda Perpétua- Colares). “Não para aqui a minha mediunidade. Descobri uma outra espécie de qualidade mediúnica, que até aqui eu não só nunca sentira, mas que, por assim dizer, só sentira negativamente”. Foi quando ele sentiu uma súbita depressão no momento em que o amigo Sá-Carneiro atravessava em Paris uma grande crise mental que o levou ao suicídio. Mas, guarda para o fim da carta o detalhe mais interessante.

“É que estou desenvolvendo qualidades, não só de médium escrevente, mas também de médium vidente. Há momentos em que tenho perfeitamente bocados de - em que vejo a de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha, ao espelho e, no escuro, irradiando-me das mãos. E não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas”. E termina dizendo: “Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver, na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato (paletó) e da pele. Isso é que é a visão etérica no seu pleno grau”.

E nos deixa mais curioso quando diz que “muitos não sabem propriamente distinguir originalidade da excentricidade: uma caracteriza o gênio, outra manifesta o louco”.

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