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CPI

Mandetta culpa Bolsonaro por avanço da pandemia

Mandetta pontuou críticas, ações e omissões de uma série de colaboradores do presidente.

Estadão Conteúdo

08/05/2021 04h04

Bolsonaro e Mandetta: presidente e ex-ministro da Saúde
DivulgaçãoBolsonaro e Mandetta: presidente e ex-ministro da Saúde

Primeiro a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta atribuiu na terça-feira, 4, ao presidente Jair Bolsonaro responsabilidades pela disseminação do novo coronavírus no País e, consequentemente, por mais mortes causadas pela doença. Em um depoimento que durou sete horas e meia, o ex-ministro disse que a Presidência chegou a avaliar um decreto que incluiria na bula da cloroquina a recomendação para tratar covid-19.

O medicamento, propagandeado por Bolsonaro como solução para a doença, é usado contra malária, artrite reumatoide e lúpus, mas não há comprovação científica de que tenha efeito contra o novo coronavírus.

A CPI foi criada para investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia no País. Os senadores apuram se houve crime na conduta de Bolsonaro, que, em diversas ocasiões, negou a gravidade da doença.

Aos senadores, o ex-ministro descreveu um cenário em que o presidente contrariou recomendações científicas, interrompeu programa de testagem e ignorou alertas no início da pandemia de que a doença poderia causar mais de 180 mil mortes no País. Até a terça-feira, foram 411 mil vidas perdidas por covid-19.

Mandetta foi demitido em abril do ano passado, após se desentender com Bolsonaro. Fora do governo, ele passou a se movimentar para disputar a Presidência em 2022 pelo DEM.O relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), avaliou as declarações do ex-ministro como "graves" e "acima das expectativas". Integrantes da CPI consideraram que as informações têm potencial para implicar Bolsonaro e aliados mais próximos.

Mandetta pontuou críticas, ações e omissões de uma série de colaboradores do presidente. Dos filhos ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e ao chefe da Economia, Paulo Guedes. Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos senadores, porém, foi a revelação de que o Planalto tinha a intenção de alterar a bula da cloroquina por meio de decreto presidencial.

"Havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de decreto presidencial para que fosse sugerido naquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), colocando na bula a indicação para coronavírus", disse o ex-titular da Saúde.

A investida, segundo Mandetta, foi barrada pelo presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e por Jorge Oliveira, então ministro da Secretaria-Geral da Presidência. A Secretaria de Comunicação da Presidência não se manifestou. A Anvisa disse que Barra Torres fará esclarecimentos amanhã, quando deverá prestar depoimento.

Na terça, durante conversa com apoiadores na porta do Alvorada, Bolsonaro ironizou seu ex-ministro. "Mandetta é aquele do ‘Fique em casa e continue sem ar’", declarou, em referência a orientações da gestão Mandetta para que as pessoas procurassem atendimento somente em casos de sintomas graves. À época, a medida era defendida por especialistas como forma de evitar o colapso no sistema de saúde.

Conselhos

Aos senadores, Mandetta afirmou que Bolsonaro tinha uma "aconselhamento paralelo", alheio às diretrizes do Ministério da Saúde. Ele relatou que os filhos políticos do presidente participavam de reuniões no Planalto e chegaram a barrar uma reunião presencial com o embaixador chinês.

Em pelo menos duas oportunidades, Mandetta respondeu positivamente a perguntas de senadores sobre a contribuição pessoal do presidente para o agravamento da pandemia, em referência às críticas ao isolamento social e ao uso de máscaras "Se a postura trouxe um impacto? Sim. Em tempos de epidemia, você tem que ter a unidade. Você tem que ter uma fala única. O raciocínio não é individual. Esse vírus ataca a sociedade como um todo", disse o ex-ministro da Saúde.

Líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-AL) saiu em defesa da gestão Bolsonaro. Disse que Mandetta foi "equilibrado" em suas colocações, mas argumentou que não é possível mensurar em mortes as políticas bem ou malsucedidas de isolamento ou de tratamento precoce. (Colaborou Pedro Caramuru)

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