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COMPORTAMENTO

Militância não combina com desrespeito, diz ativista alagoano

Desistência de Lucas Penteado do BBB promove discussão sobre racismo e intolerância

José Fernando Martins

14/02/2021 06h06 - Atualizado em 14/02/2021 06h06 - Edição 1106

Lucas Penteado resolveu sair do programa
DivulgaçãoLucas Penteado resolveu sair do programa

O reality show Big Brother Brasil, o BBB, exibido desde 2002 pela Rede Globo, deixou de ser um mero entretenimento de qualidade duvidosa para tornar-se quase um experimento social. Confinados dentro de uma casa monitorada 24 horas por dia, o público se sacia torcendo por romances, discussões e brigas. Porém, a edição de 2021 virou um prato indigesto até para os aficionados pelo programa. Os participantes que estão hoje na casa tentam reproduzir o sucesso do BBB de 2020, levando à tona temas sociais, como racismo e misoginia. 

Ou seja, querem levar a militância para casa dos espectadores. No entanto, o tiro vem saindo pela culatra fazendo o público questionar: militância e intolerância andam juntas? “O que está acontecendo dentro do BBB não é militância”, afirma Roniel Antônio Rodrigues Conceição, diretor do Departamento de Educação da Artgay de Alagoas, articulação brasileira de homens trans, gays e bissexuais.

“Karol Conka, para quem conhece seu trabalho, vinha em uma militância negra e feminista fora do BBB. Nós que somos LGBT+ ficamos surpresos com as atitudes erradas dela e de Lumena. Em nenhum momento, lá dentro do programa, pudemos considerar essas pessoas militantes ou ativistas. Os verdadeiros militantes estão na luta em prol de um povo e pela igualdade de direitos para todos, respeitando sempre o próximo. Se você desrespeita o outro para criar estratégias para o próprio ego, isso nunca poderá ser considerado uma atitude de militante”, explica. 

Karol Conká, Projota e Lumena
Karol Conká, Projota e Lumena

Alvo de bullying, o ator Lucas Penteado decidiu abandonar o reality no último domingo, 7. Negro e bissexual, ele foi agredido ver- balmente, acusado de ser perigoso, aproveitador e foi isolado até durante as refeições. Seus principais algozes foram a cantora Karol Conka, a psicóloga Lumena e o rapper Projota, todos negros. Lumena, lésbica assumida, foi quem mais se incomodou, por exemplo, com o beijo entre Lucas e Gilberto, pernambucano e doutorando em Economia. 

Vale ressaltar que foi o primeiro beijo entre homens do programa. Em vez de acolher o companheiro da casa, que confessou a ela que seria a primeira vez que assumia em público sua condição, uma vez que crescia em ambiente preconceituoso, Lumena o reprimiu. A psicóloga pontuou que Lucas estava querendo usar de assuntos sérios, como a luta LGBT+, para se promover, argumento também utilizado pela cantora bissexual Pocah. 

Lumena fez um discurso semelhante quando Lucas tentou se aproximar dela para falar da causa negra. “Você não vai ser o Zumbi dos Palmares aqui. Não vou te dar palco”, disse ela aos berros. “Infelizmente, o que estamos vendo dentro da casa é um puro absurdo e crime psicológico”, pontuou Roniel Antônio. O repúdio contra Lucas teve um motivo. Lucas gerou confusões nas duas festas da primeira semana. A primeira treta foi com Kerline, a primeira eliminada da edição. O brother tentou fazer um papel de cupido na casa e tentou juntar casais. Kerline não gostou da brincadeira o que ocasionou diversas discussões. Lucas se disse magoado, levantou a pauta do racismo por nunca ter tido relações com uma mulher branca, e Kerline repetiu que se sentiu acuada por conta da brincadeira do cupido.

Em uma das conversas, Lucas chegou a comparar Kerline com Josef Stalin, ditador russo. Na segunda festa, que teve tema de Herança Africana, ele ficou bêbado e conseguiu tretar com todo mundo. Entre as muitas coisas ditas por ele, Lucas disse que queria formar o time dos negros e que todos os participantes brancos mereciam ser eliminados do BBB primeiro. Ninguém compactuou com a ideia e todos ficaram bravos com Lu- cas. No entanto, a revolta chegou ao patamar de tortura psicológica. Foi ordenado a abaixar a cabeça para não olhar para Karol Conká, xingado e excluído. 

Foi acusado de defender vagabundos por ter participado de um movimento social como a ocupação de escolas. Todo assunto que ele tentava puxar com os participantes era mal interpretado. A humilhação foi tamanha que denúncias chegaram a ser formalizadas no Ministério Público do Rio de Janeiro. O delegado e deputado estadual de São Paulo Bruno Lima (PSL), nas redes sociais, considerou que Lucas estaria sofrendo crime de injúria. Após beijar Gilberto e não ser aceito nem pelos LGBT+ da casa, o participante desistiu do programa. Como justificativa, Boninho, diretor do BBB, disse que ele foi embora por causa de problemas com a bebida. 

Lucas e Gil protagonizam beijo que chocou a casa
Lucas e Gil protagonizam beijo que chocou a casa

Enfim, foi humilhado e saiu com o peso de ser taxado de alcoólatra. Se dentro da casa, Lucas era alvo de discórdia, no mundo real o ator ganhou milhões de seguidores do Instagram, uma vaquinha com o objetivo de atingir R$ 1,5 milhão (prêmio do programa), e uma multidão de fãs que não poupam nas mensagens de apoio. Durante duas semanas, Lucas foi um exemplo de como o bullying e a cultura do cancelamento age negativamente na vida de um ser humano. Na casa, Karol Conka já foi acusada de assédio, de preconceito contra nordestinos ao sugerir que por ser curitibana teria uma educação mais requintada. Lumena ficou em outra saia justa ao não se posicionar sobre deboches feitos sobre o orixá Xangô, religião à qual pertence. Projota pegou uma faca para se proteger de Lucas, que nunca o ameaçou. 

E Nego Di declarou que não dormiria junto às outras participantes porque iria ficar com vontade de se masturbar. “Colocar a flauta para fora”. “As meninas vem apresentando um comportamento equivocado e preconceituoso. Porém o principal ponto que essa exposição mostra é os limites do colorismo. Não somos um corpo homogêneo. O movimento negro tem uma diversidade de olhares sobre o racismo. Acredito que a casa está cheia de negros porém vazia de negritude enquanto debate qualificado de enfrentamento contra o racismo. Ao mesmo tempo o programa torna-se positivo, pois é visto por milhares de pessoas que estão entendendo agora os limites do colorismo. O que aconteceu com o jovem negro Lucas só reforça essa necessidade de um aprofundamento da luta antiracista”, considerou Jeamerson dos Santos, militante antiracista e mestre em Culturas Populares. 

A Aliança Nacional LGBTI+, presidida pelo paranaense Toni Reis, emitiu nota de repúdio aos participantes do Big Brother Brasil 2021 por crimes de LGBTfobia, bifobia e racismo contra o participante Lucas Penteado. “Chegam ao absurdo e criminoso as atitudes realizadas durante esta edição do progra- ma; por meio de falas extremamente bifóbicas, a participante questiona se o participante Lucas Penteado apenas beijou Gilberto para se promover com os telespectadores, uma vez que o participante não havia se declarado bissexual anteriormente, dando a famosa ‘carteirada de sexualidade’, nítido exemplo do preconceito que as pessoas bissexuais sofrem dentro e fora da comunidade LGBTI+”, destacou trecho da nota.

ANALOGIA AO SUICÍDIO

“Lembrem-se que a saída do Lucas do jogo, na vida real, muitas vezes é o suicídio. O BBB mostra o quão sufocante pode ser a nossa sociedade. É simbólico. E grave”, postou o jornalista Bruno Formiga no Twitter. Outro jornalista fez a mesma associação. 

“Lucas desistir do BBB após a violência psicológica de toda ordem que sofreu de outros participantes desde o começo do programa é, sim, grave. Porque evidencia uma dinâmica opressora que precisa ser questionada e criticada por nós, público, para em edições futuras não acontecer de forma tão permissiva como agora, com o aval silente da produção do programa. É um problema nosso, não da Globo. Porém, para além do reality, convido você a pensar o seguinte: lá dentro, Lucas desistiu da luta pelo sonho de ganhar o prêmio, virar milionário e, enfim, comprar uma casa para a mãe. Mas e aqui fora, na vida real? Muitos jovens como ele desistem não só de sonhos. Desistem da vida”, disse Bruno de Castro, em artigo.

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