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entrevista

'Efeito pandemia' vai gerar escolas mais dinâmicas, afirma doutor em Educação

Júlio Furtado acredita que ano letivo de 2020 não será desperdiçado

Bruno Fernandes

20/09/2020 08h08 - Atualizado em 20/09/2020 08h08

O educador Júlio Furtado durante palestra
DivulgaçãoO educador Júlio Furtado durante palestra

A pandemia da covid-19, que levou ao fechamento de escolas, ameaça apagar o progresso feito na última década em educação e saúde, especialmente nos países mais pobres. Apesar do risco, a pandemia fez escolas e professores refletirem sobre a aprendizagem significativa, duradoura e vivencial que deveria ser perseguida pela educação escolar. A opinião é do pedagogo, mestre em Educação, e doutor em Ciências da Educação, Júlio Furtado.

O coronavírus, além de causar um caos na saúde pública em todo o mundo, coloca em risco o progresso desenvolvido principalmente em Alagoas durante o ano de 2019 na área da educação. No ano passado, o estado conseguiu cumprir 92,1% das metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e ficou em segundo lugar no ranking nacional, de acordo com dados divulgados na última semana pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Em termos gerais, o Brasil avançou no índice em todas etapas de ensino, mas apenas nos anos iniciais do ensino fundamental, do 1º ao 5º ano, cumpriu a meta de qualidade nacional estabelecida para 2019. Medido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador de qualidade da educação brasileira. “Penso que após a pandemia teremos escolas mais dinâmicas e comprometidas com aprendizagens mais permanentes, contextualizadas e vivenciais. Nesse contexto eu diria que 2020 será o ano mais “ganho” da história recente da educação”, explica Júlio Furtado.

Com as dúvidas que surgiram ao longo desses últimos seis meses, principalmente em relação à instituições públicas, que não conseguiram acompanhar o imediatismo da educação remota, como foi adotado por instituições particulares, o EXTRA questionou o especialista sobre o futuro da educação, principalmente em Alagoas. Confira a entrevista completa:

O ano letivo de 2020 está perdido ou ainda há como recuperá-lo?


Depende do que se entende como um “ano ganho”. Se for um ano em que se cumpre todo o programa, sem maiores problemas, parece que a resposta é bem clara. Mas chamo a atenção para o relativismo ou até mesmo para o equívoco dessa concepção. Pesquisas comprovam que após dois meses de férias, as crianças “esquecem” de 20 a 30% do que aprenderam, o que nos acende um alerta para a natureza da aprendizagem que estamos produzindo nas escolas. Ao mesmo tempo, a pandemia mobilizou como nunca as escolas e os professores para refletirem sobre a aprendizagem significativa, duradoura e vivencial que deveria ser perseguida pela educação escolar, em função das características do ensino remoto ao qual tivemos forçosamente que nos adaptar. Penso que após a pandemia teremos escolas mais dinâmicas e comprometidas com aprendizagens mais permanentes, contextualizadas e vivenciais. Nesse contexto eu diria que 2020 será o ano mais “ganho” da história recente da educação.

Sobre o comentário de que os professores não foram preparados para a situação atual, o que o senhor teria a dizer?


De fato, os professores não foram preparados para o que estão vivendo. Na verdade, ninguém foi. Estamos vivendo uma mudança disruptiva que acontece subitamente, cujas principais armas para se enfrentar são a coragem, a resiliência e a empatia e os professores estão provando que possuem as três armas para enfrentarem o desafio. Sem falso heroísmo, o professor teve que enfrentar seus medos e inseguranças e aprender a lidar com a tecnologia e com a pedagogia do ensino remoto como quem troca o pneu de um carro em movimento e pela média dos resultados que estamos acompanhando, está vencendo a batalha.

As escolas pretendem entregar o protocolo para a volta às aulas. Mesmo com Alagoas apresentando queda nos casos de covid-19, é o momento para o retorno às salas?


Essa questão nos coloca entre dois dilemas. Por um lado, a prevenção do contágio, mantendo as crianças e jovens em casa e preservando, acima de tudo a saúde das pessoas mais velhas. Por outro, a prevenção da saúde mental dos alunos e de seu direito de aprender. Cada vez mais existe consenso no sentido de que, havendo a necessária estrutura de segurança, as aulas presenciais devem ser retomadas. O grande desafio é garantir a todas as escolas as condições sanitárias e o cumprimento dos protocolos necessários para um funcionamento seguro. É importante, também, garantir aos profissionais de educação a devida formação e apoio para que possam atuar efetivamente no contexto do ensino híbrido que requer uma dinâmica bem diferente da que as escolas estão acostumadas.

Muitos pais são contra a volta do ensino presencial e pedem uma solução como cancelar reprovações, isso seria o ideal?


Essa solução não está necessariamente ligada à causa apontada. Não haver reprovações em 2020 não é uma atitude essencial pelo fato de alguns alunos não voltarem às aulas presenciais, mas sim pelo fato de não termos garantido boas condições para que todas as crianças e jovens se mantivessem equanimemente estudando e recebendo o acompanhamento dos professores. Sei que está sendo feito o melhor possível por parte das escolas e dos professores, mas também sabemos que muitos estudantes não estão tendo acesso e nem condições de aprender. A solução apresentada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) de compor o Ciclo Emergencial 2020/21 é um caminho, no mínimo, justo levando-se em conta a realidade que enfrentamos. Teremos até o final de 2021 para ensinar o essencial que os alunos devem aprender nesses dois anos e dessa forma teremos mais tempo para corrigir as distorções e resgatar as aprendizagens. Os pais que optarem por não mandarem seus filhos à escola num possível retorno devem continuar mantendo-os no ensino remoto, como estiveram até agora e as escolas terão que garantir a continuidade desse processo.

Existe uma previsão para que o ano letivo nacional volte a sua normalidade?


Não podemos falar num contexto nacional em função das grandes diferenças que temos em nosso país. Existem diferentes realidades com relação aos riscos de infecção. Para que falemos em normalidade, precisaremos ter, em primeiro lugar, uma vacina efetiva, com resultados comprovados e toda a população vacinada. A certeza sobre a funcionalidade da vacina parece que só teremos, no mínimo em seis meses, somando-se a isso mais seis meses para a vacinação em massa (partindo-se do princípio de que as crianças e jovens serão o último grupo a ser vacinado), arrisco dizer que só podemos sonhar com uma certa normalidade a partir de 2022. Até lá, os cuidados deverão ser mantidos sob risco de termos novos aumentos de infecção e até de reinfecção. 

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