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OPERAÇÃO BATE E VOLTA

Filho de juiz comanda esquema para extorquir presidiários

Máfia é integrada por três advogados sob a liderança de Hugo Soares Braga, filho do juiz Braga Neto

Vera Alves

05/06/2020 06h06 - Atualizado em 06/06/2020 15h03

O advogado Hugo Braga foge após prisão de outros dois colegas
DivulgaçãoO advogado Hugo Braga foge após prisão de outros dois colegas

Extorsão, associação criminosa e exploração de prestígio são apenas alguns dos crimes atribuídos a uma quadrilha de jovens advogados que desde 2016 vinha agindo nos presídios de Alagoas. Esta semana, a prisão de dois deles em uma operação da Polícia Civil – denominada Bate e Volta – reacendeu a acusação feita três anos atrás pelo Sindicato dos Agentes Penitenciários de Alagoas contra o juiz José Braga Neto. Titular da 16ª Vara Criminal / Execuções Penais, ele é pai do advogado Hugo Soares Braga, que está foragido desde a quarta, 3, quando a operação foi deflagrada.

Hugo Braga é acusado de chefiar a quadrilha que, em troca de dinheiro em espécie e até imóveis, obtém a transferência de presos qualificados como perigosos para Maceió e até a redução de suas penas. O detalhe: as decisões de transferência ou progressão de regime cabem justamente a seu pai, Braga Neto.

Depoimentos obtidos com exclusividade pelo EXTRA mostram que a mesma Polícia Civil que esta semana efetuou a prisão dos advogados Fidel Dias de Melo Gomes, Ruan Vinícius Gomes de Lima permitiu que o esquema se mantivesse por ao menos três anos desde a denúncia do Sindapen. O advogado Rossemy Alves Doso também foi alvo de mandado. Ele foi ouvido pelos delegados e liberado sendo desvinculado do inquérito.

Investigado pela Corregedoria Geral de Justiça sob os olhares atentos do Conselho Nacional de Justiça, o juiz José Braga Neto acabaria sendo “inocentado”, conforme se depreende do relatório assinado no dia 16 de maio do ano passado pelo desembargador João Luiz Azevedo Lessa, no qual assinala não terem sido evidenciadas nas investigações policiais as acusações de tráfico de influência feitas contra o magistrado. 

Relator da Representação Criminal/Notícia de Crime nº 0500006-26.2017.8.02.0000 instaurada para investigar as denúncias contra Braga Neto, o desembargador assinala que “Ao fim das investigações, foi encaminhado o trabalho realizado pela Delegacia de Polícia Civil a esse gabinete (fls. 116/271), em cujo material, à fl. 270, o Delegado afirma categoricamente que ‘diante da análise de todos os documentos e depoimentos colhidos, não se vislumbrou nenhuma prática criminosa que pudesse ser assacada ao referido magistrado’, concluindo, nesse diapasão, que ‘não há nada a ser apurado na esfera da polícia judiciária, ante à ausência de suporte probatório mínimo de autoria e materialidade delitiva’, determinando, ao fim o ‘arquivamento da VPI’ no âmbito daquela polícia judiciária”.

O juiz da 16ª Vara Criminal de Maceió, José Braga Neto
O juiz da 16ª Vara Criminal de Maceió, José Braga Neto

Se as acusações feitas por agentes penitenciários em janeiro de 2017 caíram no esquecimento, o resultado agora promete ser outro. Isto porque as investigações que vieram a público esta semana já vinham se desenrolando desde antes do Carnaval e tiveram como origem a denúncia de outros juízes que atuam na 16ª Vara Criminal, aos quais detentos confirmaram o esquema chefiado pelo filho do juiz José Braga Neto.

BATE E VOLTA

Um dos detentos ouvidos pela Delegacia de Investigações e Capturas (Deic) no âmbito da Operação Bate e Volta revelou ter transferido, no dia 8 de janeiro de 2018, um apartamento para o nome de uma pessoa indicada por Hugo Braga. O imóvel, avaliado em R$ 100 mil e localizado por trás do Makro (que fechou as portas no início de maio último) estava com 70% das parcelas pagas e foi dado em pagamento a sua transferência do Presídio do Agreste, em Arapiraca, para o Baldomero Cavalcanti em Maceió. 

O depoimento de José Ricardo Ângelo, o detento que transferiu o imóvel, foi corroborado por trocas de mensagens entre dois dos advogados integrantes do esquema. Um deles, interrogado, confirmou que Hugo era a pessoa à frente do esquema.

Citado já na denúncia de 2017 feita pelo Sindapen, o traficante José Edvaldo da Silva, conhecido pela alcunha de Paulão ou Paulo Gordo, afirmou ter sido trazido de volta para Maceió no dia 5 de setembro de 2019 após acordo com Hugo pelo qual pagou R$ 7 mil. Mais uma vez transferido para o Presídio do Agreste por determinação da Secretaria de Ressocialização (Seris), afirmou que estava negociando novamente a volta para o Baldomero com o advogado filho do juiz.

Os valores cobrados pela quadrilha e segundo os presos negociados pessoalmente por Hugo divergem de um detento para outro. José Marcos dos Santos, por exemplo, contou ter pago R$ 13 mil ao jovem advogado pela volta a Maceió e este também lhe propôs a redução da pena por R$ 5 mil por cada ano a menos. Outro – Geraldo de Lima – afirma ter pago R$ 19 mil ao filho do magistrado, dinheiro em espécie e entregue por um familiar seu a Hugo em um posto de combustível. Pelo pagamento, 15 dias depois deixou o Presídio do Agreste retornando a Maceió.

Os mandados de prisão temporária e de apreensão cumpridos esta semana pela Deic foram determinados pela juíza Lívia Maria Mattos Melo Lima, da 10ª Vara Criminal da Capital.

* Matéria atualizada às 15h28 do dia 6 de junho para atualização de informações.

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