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24 de Abril de 2018

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Gogan Flores PITADA DE CRÔNICAS
Por Gogan Flores

12/02/2018 - 08:25:54

Um fatal feliz

Ilustração: Gogan Flores

Domingo é o dia que o aço cofre do cinema empena e chora. Dia que a sala fica cheia até a beira. O preço para fazer parte desse pedacinho de Maracanã refrigerado somado ao combo de pipoca, custa exatamente o montante necessário para adquirir um projetor HD no Aliexpress, e ainda sobra para comprar, a vista, 5 quilos de milho de pipoca. Segundo meus cálculos, é milho suficiente para prover pipoca para 17 “Boyhoods”.

No último domingo, acordando ainda bêbado do típico otimismo dos sábados, decidi ir ao cinema. O prejuízo era quase certo, provavelmente não conseguiria o retorno do valor em entretenimento, e ainda iria voltar pra casa carregando uma sacola pesada, cheia de reclamações. Mesmo assim o otimismo me arrastou.

Embriagado pelo orgulho próprio de quem chega cedo, me permiti o preciosismo de escolher o assento M-16: o exato meio da fileira do meio. Perfeito! Não para mim, para o ar-condicionado que carrega "central" no sobrenome. Agora já não podia fazer mais nada. Aceitei meu destino, e sentei como um anjo polar exatamente abaixo daquela auréola de gelo. O azar que não é mesquinho, ainda me rendeu o favor de sincronizar na malha do espaço tempo o dia que comprei o assento central, justamente com a vontade de assistir um filme que se passa Sibéria. Agora corpo e mente estavam na mesma cuba. 

Ainda me restava meia colher de sopa de otimismo que até então não tinha se petrificado. Tentando esquentar meu animo, pensei, "Pelo menos paguei o preço de sessão comum em um simulador". Foi tão ineficaz quanto um casaco de crochê. Poderia assistir o filme inteiro com uma peça de alcatra em meu colo, e ainda assim ela estaria boa para o consumo ao final dos créditos.

Nem foram preciso 3 cenas para eu ter certeza que minha sorte também folgava aos domingos. Eu não estava apenas no centro das fileiras, centralizado exatamente abaixo do ar condicionado central. Como que para não dissonar do canto do meu azar, descobri que assento escolhido era também o miolo de uma encruzilhada dos estereótipos da audiência cinematográfica dominical. 

Na minha direita estava o clássico indivíduo que faz o tipo de pergunta precisa sobre os pontos que o filme ainda não relatou, mas que com toda certeza irá. "Ele vai morrer?", foi a mais criativa. Perfeitamente no polo da esquerda aquele cigano cinéfilo que, com a discrição típica de quem está em casa de samba canção, gritava baixinho: Ele vai morrer! Se eu apresentasse os dois, definitivamente sairia um roteiro. 

Nas minhas costas o destino convocou uma pessoa que parecia que tinha ganhado há cinco minutos atrás um pé 47 e ainda não sabia como usar. Pelo menos ele sincronizava os chutes com as explosões e tiros, o que por sua vez somava a experiência de simulador que eu já havia aceitado. 

O anjo do desencontro querendo mostrar serviço aos seus superiores, não poderia perder sua Monalisa para escuridão. Logo viabilizou de encaixar uma senhora, exatamente na cadeira da frente, munida com um celular no décimo nível de brilho de tela e conversas do "zap" por quitar. Agora tudo estava claro, inclusive a minha córnea. 

Depois de 80 minutos, eu havia me tornado um Jack congelado prestes a murmurar meus últimos "Roses" antes de soltar a porta de mogno. O filme já avistava os créditos e se mostrava digno de uma boa nota no IMDB. Um belo desperdício coerente com toda aquela desventura. Foi quando uma faísca de sorte me esquentou a alma. 

No último degrau o diretor tropeça ao ousar um final maior que a perna, escorrega e cai com a nuca na quina de um cliché. Um fatal feliz. Apesar do rombo na minha conta corrente, agora já podia dormir tranquilo pois sabia que nenhum filme foi sacrificado pelo meu otimismo descabido em um cinema de domingo.

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