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22 de Novembro de 2017

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Edição nº 947 / 2017

11/11/2017 - 08:04:41

Fiasco tecnológico interrompe sonho de Alagoas produzir etanol 2G

Bioflex tenta substituir planta italiana paralisada há quase 2 anos por problemas técnicos

Da Redação
Fábrica em São Miguel dos Campos teve investimentos de R$ 1 bilhão - Foto: Divulgação

O que seria a primeira usina de etanol de segunda geração - de alta tecnologia - corre o risco de virar sucata e ter o mesmo destino das velhas usinas de açúcar e álcool que estão fechando em Alagoas.

Inaugurada em 2015 no município de São Miguel dos Campos, a Bioflex foi saudada como início de uma nova era tecnológica para produzir álcool a partir da palha de cana, o chamado etanol de segunda geração, ou G2. Mal entrou em operação a nova usina começou a enfrentar problemas tecnológicos que levaram à sua paralisação.

No início de 2016 sofreu três seguidos incêndios que devoraram toda a palha de cana estocada ao longo de vários meses para o início das operações, cujas causas ainda são desconhecidas. O maior problema, no entanto, é que a planta industrial instalada com tecnologia italiana se revelou inviável, levando à paralisação da Bioflex.

“Os desafios tecnológicos se mostraram maiores do que os esperados originalmente, mas a empresa mantém a confiança de que reverterá essa situação o mais rapidamente possível”, disse Allan Hiltner, vice-presidente de Negócios da GranBio, após a paralisação da unidade alagoana, em abril de 2016. Quase dois anos depois, nenhuma solução foi apresentada até agora. É o preço do pioneirismo. 

A planta da Bioflex em Alagoas consumiu R$ 1 bilhão em investimentos, tendo como maior investidor o BNDES, que em 2013 pagou R$ 600 milhões por 15% da GranBio, a holding do grupo baiano Gradin, que investiu R$ 400 milhões.

Com o fiasco da planta italiana, a Bioflex vem desenvolvendo esforços nos EUA em busca de novas tecnologias para o projeto. Ocorre que o grupo precisa de novos investimentos e já pediu ao BNDES um novo aporte de R$ 250 milhões para a empresa, mas o banco ainda não se manifestou.

Enquanto busca nova tecnologia em outros países e tenta convencer o BNDES a injetar mais recursos no projeto, o grupo GranBio – sócio da Odebrecht – briga na Justiça para ser ressarcido dos prejuízos provocados pelo fracasso da planta italiana, calculados em R$ 200 milhões.  Ocorre que a empresa italiana que instalou a planta industrial da GranBio entrou em regime de recuperação judicial e o caso deve acabar na Corte de Arbitragem de Londres. 

Risco da inovação 

já era previsto 

pela GranBio

A produção em escala comercial do etanol de segunda geração (2G) no hemisfério sul teve início no final de setembro de 2014, tendo como matéria-prima a palha da cana-de-açúcar.  “Quando anunciamos a construção da fábrica em Alagoas, em meados de 2012, assumimos o risco da inovação e do pioneirismo em um projeto com potencial transformador para as indústrias de biocombustíveis e bioquímicos”, disse na época o presidente da GranBio, Bernardo Gradin. “Mais do que a inauguração de uma fábrica, esse projeto é uma prova de que o Brasil pode liderar a indústria de biotecnologia mundial a partir de seu potencial agrícola”, destacou o empresário.

O investimento total na primeira unidade com capacidade para produzir 82 milhões de litros e gerar 61 MWhora de energia foi de US$ 265 milhões. Os recursos foram distribuídos entre a construção da fábrica, US$ 190 milhões, e o sistema de cogeração, US$ 75 milhões. Para a geração de vapor e energia elétrica o investimento foi feito em conjunto com a Usina Caeté, do grupo alagoano Carlos Lyra.

A usina começou a operar com 20% da capacidade e a expectativa era alcançar uma ocupação de 50% e com isso gerar 1 milhão de litros por mês, volume que deveria aumentar paulatinamente até que a unidade atingisse a sua capacidade total, com a produção de 8 milhões de litros por mês, o que segundo o presidente da companhia, deveria ocorrer já na metade de 2015.

Mudanças no projeto

Antes mesmo de entrar em operação a Bioflex passou por mudanças no projeto que resultaram na ampliação da cogeração de energia e melhorias feitas a partir da experiência da usina 2G italiana Beta Renewables, parceira da GranBio e provedora da tecnologia para conversão da biomassa. As modificações fizeram com que o projeto custasse 35% mais do que o planejado.

Além disso, as alterações foram acompanhadas de um período de chuvas intenso, o que provocou o adiamento da partida da planta. O tempo total de construção foi de 20 meses. Apesar do atraso, a companhia considera que o prazo foi menor do que qualquer outro empreendimento desse porte. As obras foram gerenciadas pela GranEnergia, empresa que, como a GranBio, também é controlada pela GranInvestimentos S.A, holding da família Gradin.

A GranBio desenvolveu um sistema de coleta, armazenamento e processamento de palha equivalente a 400 mil toneladas por ano para a Bioflex. A fábrica utiliza a tecnologia de pré-tratamento Proesa da empresa italiana BetaRenewables (do Grupo M&G), as enzimas da dinamarquesa Novozymes e as leveduras da holandesa DSM.

A principal fonte de recursos do empreendimento foi o BNDES, que investiu R$ 600 milhões. Diretamente o banco financiou R$ 300 milhões, através do PAISS – Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico. Outros R$ 300 milhões vieram através do braço de participações do banco, o BNDESPar, que é sócio da GranBio.

O etanol 2G da GranBio é o combustível produzido em escala comercial mais limpo do mundo em intensidade de carbono (CI), o que torna esse combustível produzido em larga escala no mais vantajoso para o meio ambiente e para reversão das mudanças climáticas.

Gradin é dona 

de 20,6% da 

Odebrecht

Cinco anos após investir cerca de R$ 1 bilhão em um projeto de etanol de segunda geração – que usa resíduos da cana-de-açúcar em sua produção -, a família Gradin ainda tenta fazer deslanchar o negócio, sua principal aposta para superar a saída tumultuada do dia a dia do grupo Odebrecht, no qual até hoje detém fatia de 20,6%. A briga entre os Gradin e os Odebrecht é uma das maiores disputas societárias em curso no País.

Batizada de GranBio, a empresa, que produz combustível a partir da palha da cana, sofreu reveses em série, que incluíram a paralisação da fábrica, incêndio no estoque de matéria-prima e briga com fornecedores. O projeto atrasou e agora precisa de mais dinheiro.

Para isso, no entanto, os Gradin precisarão da boa vontade do governo. Está prevista para a próxima quinta-feira uma assembleia para discutir com o BNDESPar, braço de participações do BNDES, novo aporte de R$ 250 milhões na empresa. O banco é o maior investidor no projeto: pagou R$ 600 milhões por 15% da GranBio em 2013. Os Gradin investiram R$ 400 milhões. Mas convencer o BNDES a colocar mais dinheiro na empresa não será fácil, afirmam fontes próximas ao banco. Procurado, o BNDES admitiu que novo aporte é necessário, mas disse não ter tomado decisão sobre o tema.

PARCERIA 

TECNOLÓGICA

Ao fundar a GranBio em 2011, Bernardo Gradin, ex-presidente da petroquímica Braskem, fechou parceria tecnológica com a italiana Mossi Ghisolfi (MG), um dos mais importantes grupos petroquímicos do mundo. Os italianos forneceriam maquinário para a usina em Alagoas. Em setembro de 2014, a fábrica começou a rodar. Mas não tardou para ficar claro que a solução vendida não funcionava. A usina só conseguia operar por poucos dias até precisar parar para reparos.

Os Gradin tentaram negociar diretamente com os donos da MG o ressarcimento, mas acabaram, segundo apurou o jornal O Estado de S. Paulo, apelando para arbitragem na Corte de Londres após a morte de Guido Ghisolfi, em 2015. Um dos herdeiros da MG, ele era o principal interlocutor dos brasileiros. Paralelamente à disputa, os Gradin abriram processo na Justiça de Alagoas para produzir provas e mostrar que a tecnologia dos italianos não funciona.

Para piorar, a MG, com dívida de quase US$ 1 bilhão, entrou em outubro com pedido de concordata na Itália e nos EUA. O episódio reduz as chances de os Gradin serem indenizados pelos prejuízos à GranBio, que somam cerca de R$ 200 milhões, apurou a reportagem.

Procurada, a MG não respondeu. A GranBio disse esperar uma solução viável com a MG e que vê a recuperação judicial do grupo como oportunidade.

(Com informações dos jornais  Estado de S. Paulo e Valor Econômico e da revista IstoÉ). 

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